Ponto Vermelho
Terrífico...
25 de Setembro de 2013
Partilhar no Facebook

Quase nenhumas dúvidas existem que qualquer acontecimento, independentemente do seu grau de importância e consistência, ganha a força e o mediatismo que lhe quisermos atribuir, em função de um conjunto de coordenadas com o seu grau de complexidade e que não raras vezes ultrapassam em muito a barreira dos limites da tolerância e do bom senso. O que revela, quer queiramos quer não, uma certa castração intelectual da sociedade que perde tempo em manobras evasivas que lhes são servidas de bandeja, quando se deveria concentrar no essencial face aos desafios que tem que enfrentar.

Pouco importa a natureza do assunto ou aquilo que ele representa, o que é crucial é fazer alarido e atrair a atenção do Zé Povinho pois enquanto ele perde tempo com pseudo-pormenores ou romances de cordel, vai-se distraindo e esquecendo do que é verdadeiramente importante e que o afecta todos os dias. E assim até é muito mais fácil fazer passar mensagens ou, esquecer outros factos e situações ocorridos, esses sim de gravidade superlativa. Uma técnica já com barbas mas que continua a dar frutos a quem continua a recorrer a esse expediente. Mais uma vez isso aconteceu.

O ocorrido em Guimarães no Domingo passado adquiriu foros de autêntico escândalo nacional mas o que sucedeu no Estoril mereceu apenas algumas notas de rodapé e perdeu-se na voragem dos interesses obscuros que sempre fizeram escola neste País. Não são, portanto, sinais dos tempos –, eles apenas os acentuaram. Mas não será a barreira de fogo presentemente em curso que irá modificar a essência dos factos em si porque, felizmente, há muita gente de olhos bem abertos e de ouvidos bem atentos que não deixarão passar esta tentativa de linchamento público de uma personagem que como todos tem os seus defeitos e comete erros.

Em Guimarães, Jorge Jesus não esteve no seu melhor. Mas tal como por exemplo no recente episódio da condenação do ex-futebolista João Vieira Pinto, o objectivo deste caso é à boa maneira portuguesa, individualizar as culpas concentrando-as num único personagem. Todos os outros intervenientes por mais responsabilidades que eventualmente possam ter passam pelos intervalos da chuva sem nunca se molharem, nem sequer com uma simples pinguinha… Jesus, foi culpado de o jogo ter sido em Guimarães, foi culpado porque a segurança permitiu a entrada pacífica de adeptos benfiquistas e, finalmente, tem que assumir as culpas por ter sido utilizada força desproporcionada sobre um indefeso e pacífico adepto que apenas pretendia obter uma simples camisola.

Deixemo-nos de hipocrisias; Jesus foi, sem dúvida, para além daquilo que deveria ido, especialmente para todos aqueles que estavam a acompanhar os acontecimentos à mesa do café ou sentados no sofá. Porque para além de não lhe competir repor a justiça face aos actos de injustiça que estava a presenciar, chocou os bons costumes de muitos puritanos que vemos mudos e quedos perante ofensas graves, cenas de violência e fumos de corrupção que são do domínio público. E porque, noutra vertente, a sua acção como não poderia deixar de ser, afectou quer queiramos quer não o nome do clube. Mas temos a fortíssima convicção de que não fosse ele treinador do Benfica e teríamos doces e suaves abordagens pela imprensa que temos neste País. Até, quem sabe, – conclusões diferentes!

Todavia, a sua atitude intempestiva (que não teve a gravidade que lhe querem atribuir) tem que ser apreciada á luz da globalidade da situação e percebidos os porquês da sua reacção, uma vez que apesar de ter sangue quente algo e alguém o fez despoletar a sua revolta perante o espectáculo degradante que se estava a desenrolar perante os seus olhos. Um jogo de futebol deve ser visto e encarado como espectáculo festivo e não o promotor de cenas gratuitas repletas de injustiça, falta de bom senso e sentido pedagógico. Os artistas são os jogadores e mal vai quando esse protagonismo é assumido por pessoas alheias ao espectáculo.

Os seres humanos têm ou podem ter diferentes tipos de reacção sobre determinados factos e situações. Naquele momento, debaixo da adrenalina que ainda não se tinha extinguido e perante tudo o que de inesperado e errado estava a acontecer, quantos de nós poderíamos afirmar com segurança a reacção que teríamos? Não se trata de desculpas ou de justificações mas apenas a constatação de factos que afecta o íntimo de cada ser humano. Isso contudo parece estar completamente fora de causa para os autores da perseguição a que temos assistido na tentativa claríssima de condenação antecipada de Jorge Jesus… e do Benfica, afinal o seu alvo principal. Daria mesmo imenso jeito…






Bookmark and Share