Ponto Vermelho
Crucificação
27 de Setembro de 2013
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1. Está feito o trabalho que conduziu ao alarido público que culminou com o avançar dos processos na justiça civil e desportiva contra Jorge Jesus. Pena que tenha sido dito tanto disparate e feitas tantas afirmações peremptórias sobre coisas que disseram ter visto e que nunca existiram, mas o desejo de crucificação é de tal ordem que mal podem esperar. Exercícios de perseguição pessoal e clubística para além da mais pura hipocrisia em que o que mais temos admirado tem sido o ar paternalista de muitos que, se tivessem algum pingo de vergonha, remeter-se-iam ao silêncio para todo o sempre.

2. Ainda sobre este lamentável episódio não podemos deixar passar em claro o facto de continuarem a existir tentativas de responsabilização individual sobre todos os factos ocorridos, quando o leque deveria ter sido alargado. Já foi dito e assumido que Jorge Jesus se excedeu ou, se quisermos, em função das imagens disponibilizadas, se revoltou enquanto ser humano pela forma pouco cuidada como o adepto estava a ser tratado como se fosse um agressivo invasor do campo, quando apenas e só pretendia a camisola de um jogador como é aliás bem visível nas imagens. Por via disso, as responsabilidades do treinador encarnado serão apuradas e julgadas.

3. Mas, contrariamente ao que querem fazer crer e num exercício de atirar poeira para os olhos dos distraídos, as responsabilidade são muito mais alargadas. Jesus tem sido crucificado por, devido às responsabilidades que tem no contexto da sociedade, ter protagonizado aquelas reacções e pelas quais, por mais que lhe assistisse razão moral, nunca deveria ter enveredado. Como exemplo único no Mundo de controle absoluto sobre si mesmo, sobre o mundo que o rodeava, sobre a injustiça que estava a assistir, afinal sobre tudo. Um perfeito autómato. Se tal tivesse acontecido, o episódio estaria resumido a uma breve nota de rodapé e já completamente esquecido pela comunicação social. Porque não dava títulos e não vendia.

4. Que saibamos Jesus não teve treinos de auto-controle e teve a péssima ideia de querer obstar à injustiça. E naquele momento, de cabeça perdida, a sua única preocupação terá sido evitar que o adepto fosse maltratado atendendo que apenas queria a camisola de um dos seus ídolos. Não deixa por isso de ser lamentável termos ouvido e visto escrito por várias vezes que apenas tomou aquela atitude para voltar a cair nas boas graças dos adeptos encarnados. Ou ainda que estava a ver muito bem quem eram as pessoas que estavam a tentar imobilizar o imprudente adepto. Como se, naquela altura, a calma e a capacidade de discernimento estivessem ao nível daqueles que do lado de fora, se entretêm agora a fulminá-lo.

5. Contudo, quer os ADR’s quer os spotters receberam treino para saberem qual a melhor forma de agir sobre todos os aspectos perante situações como a que ocorreu. E, para além da brecha na segurança que permitiu que adeptos (ainda que pacíficos) acedessem ao terreno de jogo, o comportamento desses agentes demonstrou, inequivocamente, falta de tacto, de bom senso, e mesmo ausência de controle sobre os acontecimentos. Consta dos manuais que nem todas as situações aparentemente com os mesmos contornos requerem actuação similar. É preciso avaliá-las de per si e tomar rapidamente as acções mais convenientes para cada caso que pode ser distinto.

6. Em Guimarães não há dúvida que falharam a abordagem mais adequada. Porque fizeram uma avaliação incorrecta de uma situação que não apresentava indícios de gravidade e agiram como se fosse uma típica invasão de campo com intuitos violentos. Tivessem agido com bom senso e com a pedagogia que se impunha e muito provavelmente nada teria acontecido e os adeptos teriam regressado sem problemas ao lugar onde deveriam estar – na bancada. É seguro que todos falham, mas se é assim, porquê condenar apenas e só Jesus ao calvário?

P.S.1 O novo caso Caldeira já está esquecido?
P.S.2 Quiseram os acasos da vida que em vésperas da reedição dos velhos clássicos Benfica-Belenenses acontecessem problemas de saúde com gravidade ao treinador da Cruz de Cristo – Mitchell Van der Gaag. A ele queremos fazer referência porque para além do ser humano, a sua postura sempre cordata tem-se diferenciado desde sempre da vozearia da grande maioria dos seus pares no mundo do futebol. Um rápido e completo restabelecimento são os votos que formulamos.








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