Ponto Vermelho
Incomodidade…
30 de Setembro de 2013
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Não sendo de hoje nem de ontem, alguns plumitivos como que a quererem confirmar que são filhos de boa gente, têm vindo a manifestar algum incómodo pelas críticas de que são alvo. Se dantes isso estava apenas circunscrito aos poderes constituídos e aos agentes directos do futebol, hoje em dia com a explosão das redes sociais tornou-se viral. Quem critica arrisca-se a ser criticado, e como em tudo na vida com bom senso e com falta dele. Com críticas polidas, urbanas e justificadas, mas também com exageros, ofensas e frustrações, ultrapassando bastas vezes os patamares dos profissionais da classe e seus derivados por total ausência de controle.

Acompanhamos há alguns anos a luta que a imprensa, no seu conjunto, tem desenvolvido no sentido de poder informar mais e melhor. Os sacrifícios, os estratagemas e as dificuldades que enfrentam para levar ao Mundo notícias que de outra forma nunca o seriam, e factos relevantes com interesse em serem silenciados e que jamais chegariam ao conhecimento do público. Os jornalistas da velha guarda sabem melhor do que ninguém que as directrizes monitorizadas a partir do Palácio Foz eram de castração porque o tristemente famoso lápis grosso manuseado por lacaios ao serviço do Estado Novo, quase tudo riscava com excepção das notícias e dos acontecimentos que enalteciam as grandes realizações do regime.

Noticiar com rigor e verdade constituia um autêntico desafio à imaginação dos jornalistas, e os leitores, pelo menos os mais avisados, eram obrigados a saber ler e interpretar nas entrelinhas se queriam saber mais e melhor. Ou então, recorrer à imprensa estrangeira que não estava ao alcance de qualquer um, para além de constituir um risco que expunha e encerrava demasiados perigos. Os jornalistas eram por isso confrontados com a terrível situação de saberem certos factos e situações e não poderem revelá-los livremente. Uma situação hoje ridícula mas real em tempos passados.

O 25 de Abril e a liberdade acabaram felizmente com esse estado de coisas. Mas, do lado negro, a lista de jornalistas colaboracionistas que constavam dos ficheiros do Palácio Foz nunca viu a luz do dia, talvez para não comprometer alguns novos revolucionários que surgiram pós Revolução. Tal como outras listas que dariam brado e dismistificariam muitos dos que na altura viviam vida-dupla e não pareciam dar-se mal com ela… Nada afinal que surpreenda, pois em todos os períodos da vida damos de caras com lambe-botas, acomodados e defensores acérrimos do regime, para poderem recolher, em muitas ocasiões, simples migalhas que consideram como um farnel farto e suculento.

Nos tempos actuais, para a esmagadora maioria dos profissionais da imprensa, esses acontecimentos distantes não são mais do que um registo da história e um mero acidente de percurso. Isto, evidentemente, para os que têm preocupações com a história que, não asseguramos, sejam muitos. Hoje em dia existe a preocupação de viver a vida profissional de forma mais intensa e objectiva, e o que conta é essencialmente o presente, dado que o futuro alguém se encarregou de o hipotecar por todos nós, que somos culpados por o termos permitido. Logo, existem outros tipos de preocupações que nada têm a ver com as do passado.

Mas há coisas, no campo do jornalismo, que nunca deveriam mudar, tais como o rigor, a verdade, a independência e o respeito. E isso mudou de forma inequívoca. Se fatalmente teria que haver evolução nos meios e nas mentalidades, a verdade é que a linha que separa o rigor da imprecisão, a verdade da mentira e a independência da sujeição, já de si muito ténue, deixou de existir. E ao acontecer, tornou-se numa selva incontrolada em que diariamente se ultrapassam os limites do bom senso, da educação e da decência, o que, para além de redundar em péssimos exemplos para a opinião pública, acaba por a incentivar a aprofundar o reportório de dislates com que nos inundam diariamente. As excepções que vemos nesse campo são meras gotas no oceano.

Lamentamos profundamente que a imprensa, seja palco frequente de ajustes de contas sob a capa do contraditório ou que enverede por um tipo de jornalismo que ultrapassa largamente os limites razoáveis de especulação que sempre acompanham as notícias. Deploramos, igualmente, certos programas que ultrapassam em muito os limites do bom senso que embrutecem os cidadãos e constituem autênticos atentados à inteligência de cada um, apenas e só porque essa é a forma mais rápida e mais segura de vender papel ou aumentar audiências. E, por último, abominamos a vergonha e o despudor permitidos nos on-line em que a linguagem insultuosa e de sarjeta deveria há muito ter merecido o tratamento adequado.

A forma como muitos profissionais hoje encaram a profissão em que os meios são apenas uma forma de chegar mais rapidamente ao fim pretendido, tem dado origem a especulações desenfreadas, a perseguições impiedosas e a mistificações monumentais. A integridade e a independência, condições essenciais para que haja rigor, transparência e verdade, é coisa que cada vez menos existe, tendo dado lugar à dependência e à defesa cega de interesses alheios, pelo que é fácil imaginar a forma como as notícias, em muitas situações, são trabalhadas. Quando qualquer jornalista resolve enveredar por esta estrada sinuosa não pode obter só vantagens; recolhe do mesmo modo as contrapartidas dessa sua opção discutível. E as redes sociais, com todas as vantagens e inconvenientes, são, por vezes, uma forma de exprimir esse desagrado!




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