Ponto Vermelho
Descoberta da pólvora-II
6 de Outubro de 2013
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«Muito tempo há que a mentira se tem posto em pés de verdade»-Padre António Vieira.

Vivemos num Mundo manipulador em que a insistência na mistificação e na mentira faz com que a sua repetida utilização não só baralhe os espíritos mais crédulos e susceptíveis, como acabe por impôr uma realidade mistificadora que tende a assumir laivos de verdade absoluta. Tal só é possível devido à detenção do poder obviamente, e à poderosa força da informação que tem uma influência muitas vezes decisiva na tomada de posições e na crença em fantasmas infernais sob a capa de anjos. Assim, basta ter-se acesso e alguma imaginação para conseguir fazer passar a mensagem.

Parece evidente que isso não explica tudo porque em certas situações existem determinadas análises de espírito aberto e com pontos de partida de verdade. Obedecem a uma lógica indesmentível e constituem em si mesmo peças facilmente importadas pelo sub-consciente de muitos, precisamente por obedecerem a essa componente. Poder-se-á afirmar que se enquadram, sem dúvida, no tipo de mensagens rápida e eficazmente assimiladas pelos alvos a quem se destinam.

É o que sucede com a opinião hoje expendida pelo jornalista do diário A Bola, Rogério Azevedo. Em tese quem poderá contrariar a verdade La Palaciana de que todos os seres humanos, justamente por o serem, estão sujeitos a errar? Quem poderá, de boa fé, não aceitar que qualquer um de nós na nossa vida pessoal ou profissional cometemos erros que nos podem prejudicar bem como a terceiros? A resposta é em si mesmo evidente e pacífica sem que valha a pena colocar a questão do contraditório porque quase obtém o pleno da consensualidade.

Assumindo como verdadeiro o atrás referido, dir-se-ia que os árbitros do desporto com particular destaque para os do futebol profissional por estarem sujeitos a um maior destaque e mediatismo, deveriam ser considerados para esta análise exactamente como qualquer de nós seres humanos, falíveis e permeáveis aos erros no exercício da sua outra profissão que é afinal o que está em causa. E como tal deveriam ser desculpados e compreendidos por todos nós pobres seres humanos, que infelizmente não temos nem as virtudes nem as potencialidades daquela personalidade que nunca erra e raramente tem dúvidas

Todavia a questão não pode ser colocada assim de forma tão simples e linear. Porque parte de princípios distorcidos e incorrectos se não nos cingirmos apenas à assumpção do princípio do erro que todos aceitamos como sendo quase impossível de não cometer. A questão não se centra nesse aspecto porque não é comparável, mas sim se esses erros estão desde logo justificados por se tratarem de simples erros humanos, ou se estamos a falar de erros demasiado grosseiros, evidentes e que causam prejuízos não recuperáveis aos que são penalizados. Ou, pior do que isso, se estamos a abordar erros de sentido único e recorrentes. Ou, ainda, se estamos a considerar reincidências que por acaso abrangem os internacionais, portanto os alegadamente melhores.

Houvesse respostas de quem quer que fosse a começar por aqueles que passam por serem os maiores defensores dessa causa corporativa, que conseguissem ser convincentes para todos os que não se deixam embalar por essa teoria da treta de que errare humanum est nesse particular, e seria bem possível que esse princípio universal fosse aceite e compreendido colocando um quase ponto final no assunto. Mas as aparências, as atitudes e sobretudo os factos incontroversos, encarregam-se de desmentir a cada passo aquilo que observamos que não deveria acontecer. Mas acontece com cadência ritmada, com alvos pré-definidos e com acções cirúrgicas oportunas.

Se para alguma coisa serviu o processo que deveria ter posto definitivamente cobro aos demandos dos corruptos do futebol e suas ramificações, foi para ilustrar o modus operandi desse polvo apelidado de Sistema e denunciar apenas algumas das pessoas que nele participaram e continuam impunes. E ajudou os mais cépticos a perceberem a razão de ser de algumas arbitragens escandalosas que tinham sido no momento branqueadas e desculpadas precisamente com erros humanos ou então com manobras de diversão tão ao seu gosto.

Daqui se conclui que, se por um lado deve ser feito um esforço no sentido de perceber todo o ambiente a que os árbitros estão sujeitos e tentar distinguir erros de erros, por outro, não vale a pena insistir na tese da sua desculpabilização sempre que as evidências provem o contrário. Pelo contrário há que denunciá-las sem hesitação. Hoje em dia estamos a constatar um gradual e hábil deslocamento das responsabilidades pois o foco tem estado cada vez menos concentrado no chefe de equipa para passar a estar centrado nos fiscais de linha por ser mais fácil de justificar. Observe-se que em grande parte das decisões bizarras tomadas ultimamente, os maiores protagonistas têm sido precisamente os auxiliares. Será que é para desviar a atenção ou agora assim os erros passaram a ser mais humanos?


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