Ponto Vermelho
A profissionalização
11 de Outubro de 2013
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Segundo foi hoje noticiado pela imprensa, a prometida e tão desejada profissionalização dos árbitros irá dar os primeiros passos já no mês que atravessamos. Como ponto de partida foram seleccionados alguns internacionais, sendo que Artur Soares Dias, Duarte Gomes, João Capela, Jorge Sousa e Pedro Proença serão os primeiros a ser integrados num plano ambicioso e que se espera obviamente que seja muito mais do que um projecto-piloto.

Recorde-se a propósito que esta medida fazia parte dos argumentos eleitorais esgrimidos pelo actual Presidente da FPF Fernando Gomes, que até terão convencido o Presidente encarnado. Ainda segundo a mesma fonte, os referidos juízes de campo passarão a funcionar num regime de profissionalização dedicando as terças e as quintas-feiras a actividades de arbitragem, sendo remunerados com 2.500 euros mensais com excepção de Pedro Proença que por se encontrar integrado no projecto de trabalho respeitante ao Mundial de 2014, receberá uma verba adicional de 1.500 euros.

Este projecto embrionário que tem vindo a ser trabalhado no âmbito da FPF, tem constituído um autêntico cavalo de batalha em especial pelo sector da arbitragem que obviamente é um dos principais beneficiados, pois em termos meramente lógicos a despeito de já hoje em dia os principais árbitros serem bem remunerados, não fazia sentido que num desporto altamente profissionalizado e que movimenta milhões nas várias plataformas, os árbitros sejam o parente-pobre e funcionem com o estatuto de semi-profissionais.

Aliás, o estatuto que actualmente os árbitros ostentam tem servido repetidamente para tentar explicar e desculpar inúmeras coisas, desde determinados envolvimentos inexplicáveis, ao manancial de erros que, desde há três décadas a esta parte, tem proliferado no futebol português com evidentes reflexos na adulteração da verdade desportiva dos sucessivos campeonatos em que os benefícios têm sido açambarcados apenas e só pelo clube que mais tem usufruído do Sistema.

Que o Sector da Arbitragem continue a insistir na implementação do projecto da profissionalização é compreensível porque daí parecem advir vantagens óbvias. Desde o facto dos árbitros terem melhores hipóteses e condições para se prepararem e dedicarem à causa, passando pela remuneração que passa a ser encarada noutra perspectiva muito mais adjectiva. Alguns insistem em pôr aí todas as fichas, porque estão convictos que essa alteração trará uma nova arbitragem em que os árbitros passarão, finalmente, a cumprir todas as regras e leis do jogo, sem distinção de campos, de jogadores ou de clubes. Os seus efeitos reais ver-se-ão daqui a algum tempo.

Salvo melhor opinião e continuaremos por aqui para dar a mão à palmatória caso se venha a provar o contrário, não estamos mínimamente convencidos que apenas com a implementação dessa medida acabe o despautério e a pouca vergonha que têm acontecido tantas e tantas vezes. Quando o projecto estiver implementado e entrar em velocidade de cruzeiro, ver-se-á com propriedade as diferenças e as melhorias que daí resultam. É natural que haja alguma evolução para o Sector que não tem evoluído e mantem os mesmos toques de corporativismo de sempre, e para os árbitros que integram o primeiro pelotão, que terão que justificar as novas facilidades concedidas, ao mesmo tempo que o leque de desculpas e omissões para os erros cometidos se tornará mais apertado do que nunca.

Como todos sabemos os males que afectam o Sector estão profundamente enraízados. Esta medida lógica, repetimos, nada altera de substancial nesse capítulo. Mantendo-se os mesmos dirigentes, a mesma mentalidade e a mesma influência, é crível esperar que as mudanças não sejam significativas. Receamos que tudo o que possa acontecer venha a ser uma mera operação de cosmética para dar a sensação que algo está a mudar quanto na realidade tudo ficará na mesma. Não estamos a ver que os vários dinossauros que levaram tantos anos a sedimentar-se no poder e a conspirarem nos meandros para influenciar por dentro um sector que assume um papel relevante na sua estratégia que ajuda a vencer campeonatos não importando como, abdiquem desse poder assim de mão beijada.

Este é o principal busílis desta velha questão. Há anos que se vem discutindo este tema sem que se consiga vislumbrar reais possibilidades de erradicar de vez esses malefícios. Sendo que todos os intervenientes desse sistema caduco continuam activos e interessados, temos as mais sérias dúvidas que a nova situação venha alterar em sentido positivo o que quer que seja na estratégia empreendida e que tem dado bons resultados para alguns como se tem visto. Nesta época em que apenas decorreram 7 jornadas já se observou que tudo se mantem inalterável e temos mais uma repetição igual a tantas outras. Assim sendo, é grande o nosso cepticismo sobre os resultados palpáveis que se irão observar após esta profissionalização.




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