Ponto Vermelho
Vulnerabilidades do Sistema
29 de Outubro de 2013
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1. Inúmeras vezes têm sido alertados todos aqueles a quem cabem responsabilidades na missão de assegurar a ordem pública. Aliás, quase nem seria necessário uma vez que os acontecimentos são públicos e amplamente divulgados pela imprensa escrita, falada e televisiva com todo o realismo das imagens, às vezes até em directo. O leque de responsáveis é vasto a começar pelo poder político e francamente estranhamos que o anterior campeão na luta contra a insegurança – o actual Vice-Primeiro Ministro – mantenha um silêncio sepulcral na linha com que tem moldado a sua nova personalidade.

2. Quando começaram a suceder os primeiros incidentes na área desportiva e durante algum tempo, a justificação foi a de que seriam os dirigentes dos clubes os principais responsáveis morais, uma vez que os adeptos limitavam-se a reflectir no terreno as guerras e os ódios que grassavam entre os dirigentes com algumas declarações explosivas. Havendo alguma verdade nisso, a realidade é que essa justificação serviu às mil maravilhas para que as razões se esgotassem nessa conclusão e nada fosse feito. Nessa matéria não vimos nem à Tutela nem à Federação, nem à Liga, qualquer iniciativa que tentasse (ao menos) pôr cobro a esse despautério.

3. Esse erro de natureza estratégica tanto ao gosto do laisser faire laisser passer dos portugueses viria, como estamos a observar, a causar sérios problemas com o crescimento exponencial da violência, uma vez que essas nuances eram aproveitadas por grupos radicais que existem por todo o lado e que crescem à medida que a crise dos países se acentua. É como sabemos um movimento de amplitude muito mais vasta e que encontra condições no futebol como desporto de massas para potenciar os seus desígnios pouco recomendáveis.

4. Já foi afirmado por responsáveis governativos e pela Polícia que existe legislação adequada e os nomes dos elementos desses grupos radicais e perigosos estarão cadastrados. Mas se assim é dirá o mais ingénuo e crédulo cidadão anónimo, porque continuam eles por aí a praticar distúrbios sem qualquer controle, sempre que existe um derby ou um clássico? Porque razão não são eles impedidos de se aproximar sequer de um estádio de futebol ou de um recinto desportivo? Porque não é aplicada a lei? Acreditamos que hajam algumas dificuldades e isso talvez explique de algum modo que passados 8 longos meses, o rocambolesco assalto à sede federativa continue sem ser desvendado…

5. Aproveitando o facto do clássico do Dragão ser o centro das atenções, novos desacatos e cenas de violência surgiram numa situação que pareceu configurar uma falha grave de segurança. Também como é hábito, em vez de assistirmos a uma condenação unânime dos incidentes, parte dos interessados optou pelo habitual alijar de responsabilidades com o usual – não fomos nós, foram os outros. E ao que parece a situação só não ganhou mais proporções porque o líder dos “Superdragões” acalmou as hostes e limitou-se a reter um casaco como despojo de guerra

6. Numa postura e actuação quase sempre iguais, o silêncio oficial da estrutura azul e branca é convertido em palavras justificativas ao longo das semanas seguintes pelos habituais porta-vozes que se afadigam em explicar os pontos de vista e os ângulos mais favoráveis. Mas como entidade organizadora do jogo (ainda que os incidentes tenham sido exteriores), teria sido curial ter produzido uma breve declaração condenatória do sucedido, e não ter como primeira preocupação que os enviados especiais assacassem culpas ao Sporting e nomeadamente ao seu Presidente por ter ajudado a incendiar o ambiente. De igual modo o Sporting deveria ter sido assertivo pois o que está em causa é a violência e amanhã noutro lugar qualquer poderão voltar a acontecer novas cenas de violência que até poderão não ter os mesmos protagonistas…

7. Saber que os envolvidos, depois de identificados, sairam em liberdade, é algo de surreal e que cria em cada cidadão, para além do sentimento de impunidade, uma insegurança crescente. Se foi por haver buracos na lei que se tapem os buracos, com cimento armado de preferência. Mas situações destas jamais deveriam acontecer num país que se reclama de direito. Por enquanto, porque estão-se a levantar as tradicionais vozes taxistas para suspender de vez a Constituição para poderem, decidir à medida dos seus interesses autocráticos.

8. Enquanto isso as diversas entidades e a Tutela observam, para variar, a mudez estratégica. Sabem por natureza que depois deste alarido tudo tende a esbater-se e a perder-se na ditadura do esquecimento. Depois uns inquéritos à la longue e mais umas multecas e tudo se compõe. Por sua vez alguma imprensa pareceu mais preocupada em publicitar as marcas caras de roupa e a cor das camisolas, como se a violência tivesse cor… Nada de surpreendente afinal. Ah, não se esqueçam que daqui a duas semanas há derby




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