Ponto Vermelho
Comprovou-se: este é mesmo o derby dos derbies
10 de Novembro de 2013
Partilhar no Facebook

Ao longo da nossa vida de adeptos já assistimos a uma boa porção de derbies. E a conclusão a que chegámos foi a de que há sempre algo de diferente na histórica rivalidade entre os dois grandes clubes nacionais desde há mais de um século. O disputado ontem à noite no Estádio da Luz vai ficar nos anais da história como um dos mais electrizantes e simultaneamente como um dos que mais empolgaram os adeptos por um conjunto de razões muito próprias e que só estes dérbies conseguem transmitir.

Recuemos ao anterior para o campeonato disputado em Alvalade. Nesse momento, o Sporting começava a dar sinais de retoma da grandeza que sempre o acompanhou, enquanto o Benfica navegava em águas algo agitadas derivadas de um péssimo início de campeonato com uma derrota frente ao Marítimo e uma vitória tangencial e in-extremis contra o Gil Vicente que se iria constituir como uma das boas surpresas da prova. Mesmo assim com todas essas condicionantes o jogo não deixou de ser animado com todos aqueles ingredientes tão habituais nos jogos entre os rivais.

Mas este foi um regresso aos grandes jogos com tudo a que um adepto tem direito, desde lances falhados, frangos ou perus, contestações à arbitragem, grandes golos e enormes exibições. Apenas uma situação se manteve inalterável em relação aos últimos jogos: o Benfica manteve a sua tendência suicida de sofrer golos em lances de bola parada, o que faz com que cada lance nessas circunstâncias seja um autêntico pesadelo para os adeptos que receiam sempre o pior. Que infelizmente a cada jogo se confirma, requerendo urgente análise e intervenção da equipa técnica e dos jogadores. Algo está a falhar e urge rectificar quanto antes. Antes que seja tarde e o remédio para a cura já chegue atrasado…

Esse foi, a nosso ver, um dos principais factores para que a partida mantivesse a tendência de incerteza até final. Porque a despeito de nestes jogos o factor surpresa estar sempre presente, a realidade objectiva foi a de que depois da diferença de dois golos ao intervalo e do Benfica demonstrar durante o início da 2.ª parte o objectivo de ceder a iniciativa ao Sporting mas sem abdicar do controle o jogo, os lances de bola parada que começam a ser um suplício seja qual for o adversário, tornaram o resultado problemático. Sobretudo se o adversário, como foi o Sporting, procurar lances que dêem origem a esse tipo de faltas.

Seja como for, este derby como aliás sucede na maioria das vezes fura toda a lógica e origina situações inesperadas de qualquer das equipas mesmo quando não é essa a previsão. É essa a eterna magia dos derbies e ainda bem que assim é pois apesar de nem sempre bem jogados, a incerteza quanto ao resultado final está sempre a pairar mesmo que a perspectiva aponte para a superioridade de uma ou de outra equipa. Mais uma vez isso sucedeu e daí o deslumbrante espectáculo que as duas equipas ofereceram.

Seria talvez demasiado redutor estar a falar de justiça ou de injustiça, ou de erros de arbitragem que os houve. Queixou-se o Sporting porque foi prematuramente eliminado da prova rainha, mas no derby anterior em que também existiram casos de arbitragem nitidamente em seu favor, a sua reacção foi lateralizada consubstanciando a tradicional abordagem muito latina de que quem for prejudicado que se queixe. Tudo bem desde que a visão não seja distorcida e as palavras e as atitudes não excedam os parâmetros normais das reclamações o que nestas circunstâncias quase sempre acontece. Por ser forma corrente já ninguém estranha.

Em jogos em que as diferenças se esbatem e a lógica sai furada, entendemos que o Benfica acabou por justificar a vitória e o apuramento para a próxima eliminatória. Mas o Sporting apesar do folclore e do forcing da imprensa, demonstrou que apesar de parecer estar sem dúvida no bom caminho, ainda tem um longo caminho a percorrer e que só lá mais para a frente se poderá aquilatar com mais certezas se a evolução que se detecta se vai ou não confirmar. A equipa é jovem, tem alguns bons valores, mas numa prova tão longa como o campeonato é preciso muito mais. Até porque Benfica e FC Porto que estão ainda longe de atingirem a plenitude têm outros argumentos que este leão não tem.

O que importa reter e sublinhar é que ontem o jogo foi um hino ao futebol. Sete golos, prolongamento, incerteza até ao último apito do árbitro e apoio incessante dos adeptos são a prova disso mesmo. Se por acaso os jogos fossem sempre assim não haveria indiferença que resistisse nem tantas bancadas vazias. O futebol, quando bem jogado e quando os níveis de expectativa crescem exponencialmente são o melhor lenitivo para esquecer as agruras da vida e as tristezas do presente. Nesse particular este Benfica-Sporting transportou-nos ao passado e demonstrou que por mais que se esforcem alguns que só destilam ódio, há factores insubstituíveis: a sã e intensa rivalidade que transforma estes jogos em qualquer coisa de sublime. Para o contentamento de todos a despeito de ontem terem sido os leões a suportar a tristeza…




Bookmark and Share