Ponto Vermelho
Sublime!
20 de Novembro de 2013
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Esforçados opinadores bem tinham tentado impingir que o encontro era entre Cristiano Ronaldo e Zlatan Ibrahimovic e não entre a Suécia e Portugal e, alguns outros, entre os quais o seleccionador sueco, a precisar justamente o contrário. A imprevisibilidade do futebol na baixa temperatura de Solna sem contrariar a tese dos segundos concedeu, paradoxalmente, alguns argumentos aos primeiros se considerarmos que foram precisamente os dois expoentes das equipas que acabaram por decidir o resultado final do confronto e o apuramento de Portugal.

Seria de todo injusto, todavia, situarmos a génese do encontro unicamente circunscrita à acção dos dois jogadores apesar da influência decisiva que tiveram ao longo dos noventa minutos. Há uma procura incessante e uma necessidade constante de promoção de ídolos que acaba por arrastar multidões, uma vez que por conveniências poderosas a sempre activa campanha de marketing atinge foros impensáveis e faz disparar vectores que bem direccionados são a fonte de alimentação de interesses de todo o tipo. E, para que isso aconteça, tem que haver ícones e pontos de referência fortes em torno dos quais gira tudo o resto.

Pessoalmente nunca perfilhámos essa febre porque sempre a considerámos um perfeito exagero. Isso não significa que não reconheçamos o mérito de quem quer que seja, mas há marcas que nunca devem ultrapassar o limite do razoável mesmo quando doses súbitas e agudas de patriotismo o reclamam. Porque não nos esquecemos que a hipocrisia anda sempre a cirandar, com tendência para se aproveitar sempre que a conjuntura é favorável e alguns dos bajuladores de hoje que foram críticos acérrimos ontem, sê-lo-ão de novo amanhã caso surja nova oportunidade.

A Selecção portuguesa, como parece cada vez mais haver consenso, não gosta de facilidades. Quando elas existem a tendência é para relaxar, desconcentrar, facilitar e… complicar. Mas transforma-se e reage de forma impressiva a todos esses handicaps mal chega a hora em que a estrada acaba e há que assumir uma decisão. Luz na 6.ª Feira e Solna ontem, configuravam esse cenário decisório em que não poderia haver mais tergiversações e tudo tinha que ficar decidido. Irrevogavelmente.

Tal como já tinha ficado demonstrado em Lisboa, Portugal como equipa é superior. Mas é bom lembrar que essa assumpção não se reflecte automaticamente nos resultados e é preciso fazer por isso e justificar dentro do campo. Mas não só; é preciso revelar também eficácia e ter a sorte que fazendo parte do jogo nunca se sabe para que lado pode cair. Na Luz a Suécia antes do golo português teve duas boas hipóteses de marcar mas a tal eficácia esteve felizmente arredia e Portugal acabou por justificar o tento solitário com que terminou o encontro.

Mas ontem não era preciso ser bruxo para se adivinharem dificuldades. Paradoxalmente elas não aconteceram em toda a primeira parte e só começaram, de facto, após Portugual ter inaugurado o marcador. Nesse momento, a esmagadora maioria dos adeptos e não só, convenceram-se de que o jogo estava decidido. Nada de transcendente se por acaso essa convicção não tivesse sido assimilada pelos jogadores, atendendo a que como o jogo tinha decorrido até aí com flagrante superioridade técnica e táctica portuguesa, a meia-hora do fim seria impensável que a Suécia lograsse marcar três golos.

Com os níveis de concentração portugueses semi-desligados (uma das nossas maiores pechas), os suecos num ápice viraram o resultado através do inevitável Ibrahimovic e fizeram pairar por momentos o espectro da nossa eliminação e passámos por momentos algo conturbados. Sentindo o perigo e o risco de um fim inglório depois de mais uma vez ter tido o pássaro na mão, Portugal reagiu de forma célere e sobretudo eficaz. Com as linhas da Suécia adiantadas, três passes de sonho deram a possibilidade a Cristiano Ronaldo de deixar a sua marca indelével no encontro.

É verdade que os lançamentos em profundidade foram meio-golo, mas também é verdade que só a classe, a resistência, a frieza e a mestria do nosso número 7 concederam um feliz epílogo a cada uma das jogadas. Como seria inevitável, Cristiano Ronaldo concentrou em si todas as atenções com muitos a quererem lateralizar a importância do feito e a tentarem arrastar a conversa para outros patamares pouco interessantes. Ronaldo não engoliu o isco e na euforia do momento soube estar à altura das suas responsabilidades. Porque quem está de fora sabe chegar a conclusões e quem o apoucou sabe igualmente extrair ilacções. Tudo o resto é secundário e não acrescenta nada às opiniões que todos já formaram.

Estando no auge a discussão sobre quem é o melhor do Mundo, é também bem provável que seja reeditada a discussão ridícula de quem é o melhor jogador português de todos os tempos. Ainda hoje ouvimos ao antigo jogador português Maniche afirmar que nunca tinha visto jogar Eusébio mas que considerava Ronaldo o melhor de sempre. Como sabemos, há vários Maniches por aí. Felizmente que quer Eusébio quer Cristiano Ronaldo têm sabido dar a resposta adequada a esta falsa questão. E que Ronaldo ganhe a cada mais desprestigiada ‘Bola de Ouro’, porque merece pois demonstrou ter sido indiscutivelmente o melhor. Sem qualquer excesso de patriotismo!


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