Ponto Vermelho
Atropelos recorrentes
21 de Npvembro de 2013
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1. A sucessão de atropelos com que nos vemos confrontados e que são do domínio público, fazem-nos acreditar que cada vez mais nos afastamos de um Estado de Direito pleno e de um país da União Europeia e que integra igualmente a União Monetária. São muitas as vezes em que nos sentimos tentados a pensar que estamos a regressar aos tempos do caciquismo em que a justiça (ou aquilo que é entendido como tal) se faz em função dos casos, das situações e, sobretudo, das pessoas envolvidas. Poderá ser uma errada interpretação nossa mas os indícios acumulam-se a cada passo e levam a um mar de interrogações sem resposta. A coerência não existe e caminhamos a passos largos para uma justiça em que um dos pratos da balança se inclina deliberadamente para um dos lados. E quando assim é pode vir a ser perigoso.

2. Atendendo à morosidade que é a imagem de marca da nossa justiça seja ela a civil ou a desportiva, podemos dizer que o castigo aplicado ao treinador Jorge Jesus pela justiça desportiva constitui uma autêntica pedrada no charco. Aplicar um castigo apenas 59 dias (fins de semana incluídos) pode considerar-se de facto uma proeza que deve ser assinalada, embora receemos que possa ter sido uma mera excepção à regra. Falta agora a justiça civil mas essa, ainda que não venha a adquirir os contornos de outros processos, será certamente mais demorada, embora sem chegar aos calcanhares do caso do furto dos computadores da F.P.F. que já atingiu os 284 dias. Com uma diferença significativa: enquanto que neste último caso nada transpirou até ao momento, no caso de Jesus foi cumprida a tradição do desrespeito pelo segredo de justiça sabendo-se o castigo muito antes de ele ser anunciado.

3. Socorremo-nos de uma das expressões não há muito tempo usada pelo nóvel presidente leonino - treinador é para treinar. Concordamos por ser inteiramente verdade e por partirmos do pressuposto que Bruno de Carvalho também gostará certamente de interpretar as funções de presidente no sentido estricto. Logo, ninguém deve estranhar o castigo aplicado a Jorge Jesus que é aceitável e compreensível porquanto ninguém o mandou extravasar o âmbito das suas funções e tentar defender um pacífico adepto coleccionador de camisolas, da acção desproporcionada e conjugada da dupla polícia-stewards, que estavam distraídos ao permitiram a invasão pacífica do relvado do referido adepto.

4. Este caso encerra uma dupla lição para todos nós; por um lado significa que não nos devemos meter onde não somos chamados mesmo que estejamos a assistir às maiores barbaridades e injustiças e, por outro, anotar que apenas uma escassa minoria detem a exclusividade de escapar pelos intervalos da chuva a este tipo de situações devido à influência que detem no meio. Pelos vistos o conceito de que a justiça em Portugal quando nasceu não foi para todos começa a ganhar terreno de forma célere e, como tal, os desequilíbrios tenderão a acentuar-se porque há que manter as aparências de continuarmos a viver num Estado de Direito imaculado.

5. Todavia, em face da sucessão de casos demasiado compreensíveis, estamos a observar este despautério sublime: não são os fiéis Pétains como extensão da Troika em Portugal que têm que respeitar a Constituição da República mas exactamente esta que tem que se adaptar aos seus fabulosos desígnios, certamente a bem deste povo que nunca mais aprende. Tudo, é claro, perante o olhar distraído daquele que a jurou defender. Não poderemos pois esperar milagres. Valeu-nos por estes dias a Selecção portuguesa que deu um forte contributo para atenuar a nossa vil tristeza mas, passado o efeito, regressaremos de novo às incertezas e ao desespero que se acentuam todos os dias, sem apelo nem agravo e a uma desesperança que se antevê duradoura.

6. Decidida a primeira parte do castigo a Jorge Jesus aguarda-se agora pelo epílogo da segunda, fruto da acção de uma zelosa polícia que se sempre assim actuasse estamos convictos de que golearia em todos os jogos. É certo que o jovem adepto não teria possibilidade de obter a tão almejada camisola mas em contrapartida, não haveria dedos em riste, bolas de golfe nem petardos em estádios de futebol e muito menos pombos sem asas em pontes e viadutos a ameaçar de morte a vida dos cidadãos. E até o assalto rocambolesco à F.P.F. já teria sido desvendado sem ter que esperar pelo defeso, porque nos recusamos a acreditar que o arquivamento, tal como o incêndio da Luz, seja o seu destino fatal. Não podemos deixar de reconhecer que vivemos num país multifacetado onde as surpresas deixaram de ter expressão, os casos deixaram de o ser, e onde existe sempre a expectativa de que tudo pode acontecer. Digam lá; não vivemos num país deveras emocionante?








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