Ponto Vermelho
Contradições e aproveitamentos
22 de Novembro de 2013
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O rendez vous aprazado para Solna, pela sua projecção e importância estava fatalmente condenado a fazer parte das atenções dos portugueses amantes ou não do futebol. Quando sucedem jogos com esta importância começa a ser frequente termos espectadores nos estádios que só lá vão porque joga a Selecção. Viu-se isso na Luz em todo o esplendor. E nessas circunstâncias, fosse qual fosse o resultado final da eliminatória do play-off seria inevitável que os comentários não se fizessem esperar, com alegria ou com tristeza, com aplausos veementes ou críticas azedas e destrutivas. Os portugueses passam muito rapidamente do 8 para o oitenta sendo o inverso também verdadeiro.

Tivéssemos sido eliminados e por esta hora abater-se-ía sobre Paulo Bento e os jogadores uma tempestade de críticas e de lamentações cujo ensaio já se tinha começado aliás a verificar, quando fruto de alguns maus resultados o espectro do play-off e a incerteza quanto ao apuramento começaram a ganhar forma. Felizmente que tudo acabou por ser desmobilizado, o apuramento fez milagres e as críticas de ontem transformaram-se nos elogios de hoje tendo em conta a forma como nos batemos na Suécia, o resultado que conseguimos e, sobretudo, a forma como o obtivémos com Cristiano Ronaldo a brilhar a grande altura.

Dada a nossa maneira de ser emotiva e por vezes contraditória, os exageros não tardaram. Ronaldo foi elevado a níveis da extratosfera porque com a palhaçada em que se transformou a atribuição da “Bola de Ouro”, muitos foram impelidos a manifestar-se de forma veemente considerando que a nuvem da injustiça estava algures a apontar para mais uma decisão injusta e estapafúrdia. Está na altura dos senhores da FIFA e da UEFA ponderarem seriamente os critérios para a atribuição do troféu, porque a cada ano que passa mais vozes se levantam a clamar por uma eleição sem manipulações de qualquer espécie e sem considerar alguns dos items que são fonte de críticas constantes. E a reabertura da votação, ainda que pareça favorecer Ronaldo, é mais uma acha para a fogueira.

Descontando acentuadas doses de deslumbramento e dando de barato mais uma preocupante manifestação de azia de Carlos Queiroz (qual é a necessidade?), importa agora que a poeira começa lentamente a assentar e a 7 meses de distância, que a vasta equipa que é a Selecção comece desde já a trabalhar conceitos e a rever procedimentos, na medida em que nem tudo parece afinado e pronto para as exigências muito maiores que se irão colocar no Brasil. Parece haver alguns jogadores em declínio e outros que legitimamente reclamam uma oportunidade. No entanto a essa distância temporal muita coisa pode ainda vir a acontecer e alguns jogadores que não impressionaram agora poderão nessa altura dar outro tipo de respostas. Até porque todos estarão motivadíssimos para se exibirem num palco daquela dimensão.

Nestes dois últimos jogos, e só para citar um exemplo, Nani cuja categoria e empenho não podem nem devem ser questionados, esteve muito abaixo das suas reais possibilidades num prolongamento do que já se tinha visto em anteriores jogos. Será porventura uma questão do foro psicológico, mas a verdade é que, do nosso ponto de vista, Varela teria provavelmente dado outro tipo de resposta por se encontrar em melhor forma. Pensamos que Paulo Bento enquanto seleccionador tem logicamente todo o direito de se manter fiel às suas convicções, mas um pouco mais de abertura e quiçá de rotatividade sem colidir com as suas ideias de jogo não faria mal a ninguém.

Alguns, de forma exagerada em nosso entender, consideram que a Selecção Portuguesa tem apenas neste momento dois jogadores de classe mundial. Depende do conceito e da análise que se queira fazer. Se estamos longe de possuir muitos valores de excepção e uma equipa com um elevado grau de homogeneidade, a realidade é que continuamos a possuir elementos de inegável valia, embora neste ou naquele sector exista um claro défice de individualidades. Mas isso, a avaliar por aquilo que se tem visto, também outras Selecções o terão.

Com os novos valores que estão a despontar e que já se aproximam de certezas plenas, estamos convictos de que poderemos continuar a manter uma Selecção competitiva e a poder bater-se sem qualquer tipo de receio com a esmagadora maioria das Selecções. O que não podemos é permitir que se crie a convicção de que Ronaldo resolve tudo porque essa será a pior das soluções. O que há a fazer é potenciar uma equipa homogénea e competitiva que ajude Ronaldo a exprimir todo o imenso potencial que possui. E isso na nossa modesta opinião tem, sem dúvida nenhuma, pés para andar!






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