Ponto Vermelho
Dúvidas persistentes
28 de Novembro de 2013
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Quando a vitória do Benfica em Bruxelas ante o seu velho conhecido Anderlecht atinge particular relevância na presente conjuntura, tal pode ser sinónimo de que um conjunto anormal de razões aconteceu e não pelo resultado em si mesmo, o qual poderá considerar-se normal tendo em conta a diferença de potencial que existe neste momento entre as duas equipas e as perspectivas que se antecipavam para o encontro. O facto foi sublinhado por ter sido a primeira vitória de uma equipa portuguesa na Europa após 16 longos e preocupantes desaires e semi-frustrações, ficando a pairar no ar interrogações sobre se ao futebol português também já foi a aplicada a receita da troika de empobrecimento colectivo…

Apesar da evidência, não se nos afigura que tenhamos atingido essa meta de desgraça. Mas, aparte uma conjuntura que é impossível negar, parece-nos evidentíssimo que o leque das equipas a participarem na Europa está deveras inflaccionado porquanto tirando as principais, não vemos nível competitivo no nosso futebol para que possamos alargar a nossa participação sem passarmos por apertos desnecessários. É evidente que esta assumpção está de alguma forma alicerçada na participação deste ano, mas parece-nos claro que é um tema que mais tarde ou mais cedo terá que ser ponderado pelo nosso futebol e até no interesse de algumas das equipas.

Esta época as coisas não têm corrido bem a nenhuma das equipas participantes incluindo FC Porto e Benfica que estão, até ver, a falhar os seus objectivos. Todavia, não comungamos da opinião de alguns profetas da desgraça que vêem nisso um sinal que o nosso destino imediato será a participação na 2.ª ou 3.ª divisão europeias deixando a Liga de Honra para os clubes da Europa dos ricos. Daí o tema do sonho de Luís Filipe Vieira e da resposta palerma de Pinto da Costa terem vindo a ser muito glosados, sobretudo porque as prestações das duas equipas se estão a situar em patamares abaixo dos exigíveis. Mas no início, apesar de ser extraordinariamente difícil, os sonhos eram legítimos porque estávamos a falar de futebol onde tudo é possível e não de um crescimento da economia de 4% ao ano…

Voltando à vitória do Benfica em Bruxelas, confessamos que não nos surpreendeu minimamente, situação que aconteceria se porventura tivesse sucedido o contrário, muito embora aconteçam imprevistos com relativa frequência que fazem com que a incerteza nos resultados esteja sempre com luz intermitente. Mesmo quando os encarnados se apresentam como favoritos e necessitam de ganhar como era o caso. A despeito de alguns problemas com a aritmética que baralharam alguns espíritos, enquanto for matematicamente possível o apuramento para os oitavos não queremos ouvir falar de Liga Europa.

Fruto das lesões que não param de fustigar o plantel mas também, há que dizê-lo, da necessidade de auto-afirmação contínua da imaginação e de surpreender os adversários quando não mesmo a própria equipa, o onze escolhido teve as habituais surpresas tendo em conta as circunstâncias, excepto para lesão de última hora (mais uma) que aconteceu com Sílvio indigitado titular. Não se poderá considerar surpresa o rendimento da equipa em particular na zona nevrálgica do meio-campo, atendendo a que Enzo Pérez está desligado da sua posição de origem e porque o espaço de coabitação entre Fejsa regressado de lesão e Matic, está longe da perfeição e precisa de ser afinado caso persista a ideia. Ora, não nos parece que o tempo e as circunstâncias fossem os mais adequados para estas experimentações. Mas isto, claro, somos nós a dizer treinadores de bancada…

É certo que faltaram Rúben Amorim e Óscar Cardozo que contribuiram para a melhor exibição da temporada em Atenas. Mas é inegável que a disposição, a diferença acentuada entre linhas e a forma como foi encarado o encontro, contribuiram para a exibição mais uma vez pouco conseguida em que, parodoxalmente, o resultado foi positivo. Sem que isto signifique que todos os jogadores não tentaram dar o seu melhor, é preciso sublinhar que deve ser repensada a acção de alguns elementos, porque não basta ter talento mas sim poder exprimi-lo nas prestações em prol do esforço colectivo, sem que isso queira significar terem de ficar amarrados a tácticas rígidas que acabam por castrar a sua liberdade, improvisação e criatividade, como aliás já temos observado por mais do que uma vez.

Só assim o Benfica poderá jogar como equipa coesa o tempo todo sem necessidade de passar por calafrios que têm acontecido com consequências nefastas. Ainda ontem depois de terem virado o resultado em vez de prosseguirem o objectivo de matar de vez o desafio, notou-se uma atitude de retracção e de redução da intensidade que quase deu origem a mais um resultado adverso. Isto quando neste momento há um défice claro nas bolas paradas e nos centros para a área o que aumenta o potencial de risco. Felizmente não aconteceu mas ficou o aviso. Para atingir objectivos urge repensar estratégias, não só porque o historial e o prestígio do Benfica a isso obrigam, mas também porque o plantel tem soluções e os adeptos têm o direito de assistir aos jogos sem estar, quase sempre, com o credo nas mãos






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