Ponto Vermelho
Um Natal diferente
9 de Dezembro de 2013
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Todos os portugueses que não padecem do síndroma da mesquinhez, que aceitam a igualdade como ponto de partida, que comungam dos ideais da liberdade e que encaram o Natal como uma quadra onde o conceito de família e de fraternidade se sobrepõe a tudo o resto, não podem ainda assim deixar de lamentar que este Natal seja tendencialmente mais triste do que nunca por quase total escassez de meios subtraídos de forma pouco subreptícia ao bolso vazio dos cidadãos. Com o pretexto de algo que o mais comum dos mortais ainda não conseguiu enxergar de que se trata, para além do óbvio, atendendo a que ainda ninguém conseguiu explicar como vai ser o dia de amanhã e como vão sobreviver as gerações vindouras dado que as actuais estão hipotecadas a um futuro que já não existe. Talvez porque não tenha explicação.

Felizmente que existem contrapartidas e distracções como o Futebol que pode servir de lenitivo para as amarguras da vida de alguns, e este Natal como interlúdio de tantos e tantos Natais sem qualquer fé nem esperança, e Anos Novos sempre antecipadamente condenados ao insucesso promete, em contraciclo com a grande maioria neste cantinho e na diáspora, ser finalmente diferente, uma situação tão longa e ansiosamente aguardada que tem dado origem a um amplo leque de interacções e reacções, algumas das quais incrédulas e que ainda não querem crer na realidade indiscutível e palpável que desfila perante os seus olhos atónitos.

Não há a menor dúvida que vai ser um Natal diferente para melhor, muito melhor, sem traumas, recriminações ou funerais, onde a tristeza dá lugar à alegria, a desesperança à firme convicção de que este ano é que (finalmente!!!) vai ser, e o desânimo à euforia sem travões e cujo fim não pode ser mesurado, pois o céu está demasiado perto para que possa ser considerado como limite. Convenhamos que tudo isto é de tal forma natural e expansível que tem levado até os outrora cépticos e mais firmes opositores a renderem-se às evidências de um caminho desbravado com sangue, suor e lágrimas e que parece agora, mais do nunca, atapetado pelas mais belas flores. É o verdadeiro milagre natalício a provar que no cardápio da vida não constam apenas desgostos ou situações deprimentes e insolúveis.

Encarnando todo este espírito festivo que é próprio da quadra que nos aprestamos para atravessar, eis o Sporting em toda a sua plenitude! Contrariando todas as expectativas até as próprias, o Natal de 2013 vai ser comemorado pela primeira vez em muitos anos com alegria nos lares sportinguistas o que, para quem prima pelo conceito de justiça sem subterfúgios como tantas vezes tem acontecido noutras latitudes, afigura-se da mais elementar equidade. Sem constrangimentos de vizinhança e esquecendo por momentos que em idênticas circunstâncias devido a seculares rivalidades que complexaram, a situação antagónica não seria de nenhuma forma aceite e muito menos reconhecida. São formas de estar distintas que não se discutem por serem demasiado evidentes.

Para que todo este rodízio de novidades acontecesse, tem havido uma conjuntura surpreendente e inesperada cujos vectores conjugados têm vindo a apontar num determinado sentido. Para além dos méritos desportivos leoninos, alguns já aflorados na parte final da temporada anterior e que apesar de estrategicamente esquecidos se projectaram e confirmaram na presente, tem havido ao mesmo tempo e paradoxalmente, instabilidade e irregularidade nos dois principais candidatos em que a maior surpresa tem sido o seu ex-aliado, já que no vizinho não estava de nenhum modo excluída, à partida, a possibilidade de tal vir a suceder. Mas como diz o provérbio com o mal dos outros posso eu bem, e o Sporting adoptou-o como seu. Para além, obviamente, de não ter qualquer culpa. Apenas algumas ajudinhas inocentes que momentaneamente se olvidam com espírito natalício…

Justamente enquadrados nesse espírito e porque não fazemos da inveja a nossa profissão, realcemos pois a alegria sportinguista tão preciosa para a última geração que desde o longínquo ano de 2005 e devido a uma maldade do vizinho não mais teve a possibilidade de ver o seu Sporting em primeiro. Só quem teve e deixou de ter é que sabe dar o devido valor, pelo que é salutar que neste Natal não hajam treinadores despedidos em Alvalade, o habitual enunciar de este já foi, para o ano é que é, nem tristezas, frustrações ou amarguras nos corações verdes e brancos. Mesmo os mais epedernidos pelo insucesso. O verde brilha de intensa esperança e não há populismos, exageros ou palhaçadas que consigam apagar ou fazer esmorecer o momento de entusiasmo que grassa nos corações sportinguistas. As situações positivas inesperadas, quando são raras, são para serem vividas intensamente, sobretudo quando nem sequer se imagina a volumetria da onda que subitamente inundou com uma chuva que parece ter o efeito de um raio de sol num dia de invernia. Apenas há que ter a máxima prudência, porque estas ondas por vezes evaporam-se tão subitamente como aparecem, deixando atrás de si apenas sinais vagos de esperança fugidia para além de uma imensa saudade...








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