Ponto Vermelho
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19 de Dezembro de 2013
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Numa época em que são citadas quase de forma diária estatísticas elaboradas por fontes da mais diversa origem a propósito de tudo e de nada para justificar as teses que importa publicitar de forma a corresponder aos interesses de quem as evoca, somos confrontados com situações que nos deixam atónitos tal a crueza dos factos e a frieza dos números. Num país que cavalga na frente invariavelmente pelas piores razões, habituados que estamos a essas estatísticas, encaramos a sua divulgação com um encolher de ombros próprio de quem já estava à espera que assim fosse e, como tal, resignados a mais inevitabilidades. Assim tem sido ao longo de décadas sucessivas sem que o rumo dos acontecimentos seja invertido. Por manifesta incapacidade própria.

As últimas apresentam-nos ainda mais distantes dos níveis europeus que são cada vez mais uma miragem e, sem qualquer estranheza, observamos impassíveis ultrapassagens de países que não há muito tempo estavam ainda a alguma distância dos nossos padrões. A mendicidade que tem vindo a ser maquilhada está a surgir por todo o lado de forma inapelável, porquanto deixou de ser possível esconder aquilo que todos nós constatamos no nosso dia a dia, seja na família, nos amigos, nos vizinhos, nos conhecidos e em todos aqueles com que nos cruzamos nas ruas e não conhecemos, mas imaginamos o terrível sofrimento que se esconde nos seus rostos cansados e aparentemente resignados.

As medidas gravosas e sem nexo tomadas por governantes sem réstea de patriotismo a pretexto de um défice galopante que eles próprios ao longo dos tempos deixaram chegar a níveis impensáveis, cavou como não poderia deixar de ser profundas alterações na sociedade portuguesa. As classes que serviam de alavanca ao trabalho e desenvolvimento mirraram, e a implacável força da realidade forçou um sem número de famílias e cidadãos a ter que introduzir profundíssimas alterações na sua vida quotidiana, assistindo-se a um impensável fluxo migratório dentro do próprio país com um regresso às origens em muitos casos, fruto da impossibilidade de continuarem a manter-se nas grandes cidades, cujos bairros, avenidas ou simples becos sofreram uma mutação populacional sem precedentes. E com isso a vida e o comércio que os suportava.

Quebraram-se laços, perderam-se valores e pontos de referência que duravam há décadas e que serviam de suporte à vida de todos os dias e a nova população que já se começou a recompôr é constituida em muitos casos por estranhos perdidos na selva fabricada e à procura do melhor caminho para se adaptarem a uma nova realidade com que doravante serão forçados a viver. Mas sempre ansiosos e inseguros porque a mutabilidade da conjuntura leva-os a imaginar o que é hoje mas não o que poderá suceder amanhã, dado que alguns da nova casta de iluminados que gravitam neste momento por esta pátria lusa, ao acordar, poderão alterar de novo as regras de jogo decididas ontem ao abrigo de prerrogativas que os acasos do destino lhe colocaram indevidamente nas mãos.

O forte incremento de portugueses na diáspora nos tempos mais recentes encontra paralelo nos idos 60 e princípios de 70. Com uma diferença substancial: é que o movimento de saída era maioritariamente composto por pessoas de índice baixo de escolaridade próprio da época e basicamente indiferenciados, e agora, depois dos vários convites recebidos das mais altas instâncias, estão a emigrar quadros e mão de obra especializada que tanta falta fariam para fazer singrar o país, caso a opção política recaísse no seu desenvolvimento e no bem estar do seu povo como devia e é sua estricta obrigação. Outra das principais diferenças é que esta nova geração migratória, ao contrário da anterior, não vai canalizar remessas ou promover o imobiliário particular. Ficam a ganhar os países que os acolhem e fica mais empobrecido este já tão pobre País...

Não fica por aqui o desaproveitamento da massa cinzenta. Enquanto a população dos Ministérios aumenta com pseudo-profissionais imberbes e sem tirocínio e tudo o que é coisa pública, a certos níveis, garante empregos principescamente remunerados contrariando a lógica fortemente restrictiva da esmagadora maioria da população (activa e passiva), alguns dos que por cá ficaram por opção e que têm demonstrado ao longo dos tempos toda a sua capacidade, empreendorismo e realização, são preteridos sem que se perceba a lógica subjacente. Porque, se calhar, fazer muito e ainda por cima bem contrariando a inércia e mediocridade instalada, faz sombra àqueles cujo ritmo não tem mais do que três velocidades... Se assim for, está plenamente justificado o afastamento de Carlos Móia do Conselho Nacional do Desporto. Siga a dança...








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