Ponto Vermelho
Futebol a sério
28 de Dezembro de 2013
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1. Embora seja um facto há muito adquirido, quem tem tido o previlégio de acompanhar a Liga Inglesa através da Benfica TV não pode deixar de fazer a inevitável pergunta: que segredo terão os ingleses para que os estádios estejam sempre a abarrotar (independentemente dos clubes que jogarem), o entusiasmo esteja sempre a fervilhar nos espectadores que a eles assistam e nas famílias que se espraiam por todos os campos emprestando um colorido único às bancadas e ao ambiente em geral?

2. Como explicar esse fenómeno no país que inventou o Futebol há mais de um século tal como o conhecemos hoje, e na pátria que revelou ao Mundo o hooliganismo como terrível episódio dos nossos dias? Muitas e variadas explicações poderão ser encontradas mas, quaisquer que elas sejam, terão que ser obrigatoriamente positivas pois fazem reviver a cada momento aquilo que devia de ser o Futebol de hoje em todas as latitudes, por forma a exteriorizar todas as paixões sem serem ultrapassados os limites aceitáveis da tolerância dentro e fora do campo.

3. A sua influência em Portugal é conhecida – foram eles que deram o pontapé-de-saída, pelo que deveríamos apesar de tanto tempo decorrido, conservar alguns dados da matriz sendo que seria utópico pensar em muito mais. Somos latinos, impulsivos, e por isso agimos bastas vezes sem ponderação. Por isso cometemos um maior número de erros que vamos sempre adiando ou tentando esquecer em vez de os corrigir, e passado um tempo razoável sem intervenção, eles são assimilados pela máquina do tempo, contribuindo assim para que tudo piore e fique sem remédio.

4. Este cenário com o seu quê de catastrofista teve um impulso decisivo após Abril. Habituados a viver agrilhoados pela longa ditadura, o advento da liberdade trouxe um sem número de novos protagonistas sequiosos do poder que tomaram de assalto as estruturas caducas então existentes no futebol. E como salvo raríssimas excepções todos eles tinham absorvido da ditadura a sua essência e filosofia de vida, enquanto muitos dormiam já eles estavam no terreno conquistando posições e lançando a primeira pedra para a construção de um novo e importante edifício. Com eles como arquitectos evidentemente.

5. Da exploração do futebol como ícone distractivo das multidões ensaiado até à exaustão pelo Estado Novo, passámos a ter uma democracia selectiva e musculada onde apenas passaram a ter lugar todos aqueles que preenchessem os requisitos estipulados pelos novos senhores. Definir regras apertadas e estabelecer uma teia de interesses e concluios que se estenderam a todos os sectores da sociedade não foi tarefa particularmente difícil, sabendo-se a génese de formação dos nóveis dirigentes. Apenas levou tempo, tendo em conta a nova realidade em que havia que definir lugares, hierarquizar tarefas e sedimentar estruturas.

6. Sabemos o que depois aconteceu e na selva em que o Futebol português se tornou, em que o mesmo passou a ganhar quase sempre aparte jogar melhor ou pior, justificá-lo ou não. Um dos desportos mais entusiasmantes passou a ter as regras viciadas, muito embora a grande maioria dos adeptos tivesse demorado a perceber em toda a sua extensão as tramóias urdidas no silêncio dos bastidores e tivesse aberto definitivamente os olhos a partir do ‘Apito Dourado’, um processo que para os atingidos foi uma invencionice e nunca existiu, apesar das evidências esmagadoras.

7. Esses factores deveras negativos e lesa-futebol teriam pois que ter tido, fatalmente, uma influência desastrosa no progresso e no desenvolvimento do nosso Futebol. O saber-se que as regras estavam viciadas e as constantes invectivas de vários protagonistas serviram de rastilho ao início da violência que passou de verbal a física com o aparecimento de grupos marginais, e isso começou a afastar pessoas dos estádios. Quem devia intervir assobiou para o lado e não só não pôs cobro aos exageros linguísticos dos dirigentes através de uma magistratura de influência, como igualmente permitiu por omissão, a acção destrutiva de meia-dúzia de vândalos à solta. Ao contrário dos ingleses que resolveram um caso bem mais grave em três tempos. Se juntarmos a tudo isso o exageradíssimo preço dos bilhetes agravado ainda mais na relação qualidade do espectáculo/preço, à ditadura de horários imposta pela monopolista televisão oficial do Sistema, logramos mais duas razões para o afastamento.

8. Mas se quisermos ainda considerar a magnífica colaboração do Governo com o despudorado aumento do IVA, a questão da segurança vs policiamento e os cortes orçamentais sistemáticos para a FPF e de forma brutal no bolso dos adeptos de futebol, temos um amplo conjunto de ingredientes a justificar o crescendo de ausência de espectadores. Se por último lhe adicionarmos os péssimos espectáculos nos campos de futebol com as equipas a praticarem um futebol sem chama, fiteiro e de contenção tentando antes do mais não perder, conseguimos sem dificuldade perceber o porquê de haver muito menos gente no futebol. É por tudo isso que os ingleses têm os estádios cheios e nós não. E a crise aqui tinha que trabalhar muito para explicar tudo isto…




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