Ponto Vermelho
Regeneração
29 de Dezembro de 2013
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Não é de hoje nem de ontem que alguns defendem ser urgente regenerar o futebol português. Com efeito, para além de ser um assunto sempre actual, quando acontece mais um daqueles casos que costumam enfeitar o quotidiano desportivo, volta-se aqui e ali a clamar contras as injustiças, a apelar à necessidade de mudar as leis que regem o futebol, e a modificar as estruturas por forma a agilizar o progresso e o desenvolvimento do desporto-rei. Isto acontece de forma intermitente depois de uma qualquer intervenção mais inflamada, conhecendo invariavelmente o mesmo destino – o rápido esquecimento.

Quem tem acompanhado minimamente o futebol nos últimos anos percebe com facilidade o porquê disto acontecer. Para que haja progresso é preciso vontade, e para que ocorra desenvolvimento torna-se necessário que para além da vontade, exista a firme disposição de perseguir com trabalho, seriedade e dedicação os objectivos em mente. Como temos observado nada disso tem existido por uma razão simples –, é que os habituais senhores que dominam e controlam os bastidores do poder não estão de forma nenhuma interessados. Porque isso significaria terem de abdicar da possibilidade de influenciar para usufruir e, como é evidente, não estão dispostos a ceder seja o que for depois de tanto terem porfiado para cimentar as estruturas que lhe servem os interesses. Afinal o Homem é mesmo um animal de hábitos…

Seria necessário, antes do mais, haver firme intenção política dado que até mesmo o Futebol, num Estado de Direito, não pode contrariar as leis do País. E não sendo um exclusivo, o que vemos é que o Futebol foi sempre praticamente um Estado dentro de outro Estado, regendo-se quase exclusivamente pelas suas próprias leis sob o olhar permissivo e desatento dos órgãos a quem competia fiscalizar que se têm limitado a encolher os ombros perante os despautérios frequentes de algumas gentes que têm feito história pelas piores razões. Esta situação não é nova e tem sido transversal a todos os governos, aparte a facção política que, à vez, vai ocupando os cadeirões do poder legislativo.

Mas admitindo hipoteticamente que havia vontade política para regenerar o Futebol, a situação não era de molde nenhum fácil de levar à prática. Por um conjunto diversificado de razões e porque os poderes do futebol têm ramificações em todos os tabuleiros que de imediato actuariam se porventura essas projectadas alterações colidissem com os interesses instalados há décadas. Assim tem prevalecido por sistema a vontade e a determinação dos senhores do futebol que continuam a legislar em causa própria com as consequências que conhecemos. Da forma como o esquema está montado, qualquer proposta por mais justa e equitativa que seja, desde que afecte qualquer desses interesses, fica imediatamente sujeita ao chumbo nas habituais reuniões magnas, onde como se sabe é praticada a democracia em pleno.

Não é por caso que se diz a cada passo que as coisas têm de mudar mas o que observamos é que a despeito de algumas operações de mera cosmética, no essencial nada se modifica nem sequer as moscas que apenas mudam de poiso. E nem o facto do Futebol português estar em muitos casos preso no labirinto das suas próprias contradições com os clubes a implorar por receitas e com os estádios cada vez mais vazios (embora a crise que atravessamos deva ser considerada), demove esses corações empedernidos para quem o poder é o objectivo primeiro e… último. Por este andar a galinha dos ovos de ouro acaba por ser sacrificada mas isso parece não os preocupar, pois a acontecer, quem vier atrás que feche a porta…

Na linha populista e voluntariosa que o caracteriza, o presidente leonino Bruno de Carvalho na entrevista que concedeu ao ‘Expresso’ cujos excertos foram divulgados pela imprensa em geral, confirmou ter entregue recentemente aos diversos Grupos Parlamentares um extenso documento com o fim de tornar o sistema mais transparente. Esse documento sob a forma de propostas, engloba diversas áreas que vão desde as diferentes vertentes da área desportiva, a aspectos de fiscalidade sem esquecer um dos seus alvos predilectos – o complexo mundo da arbitragem.

Não conhecemos os detalhes das propostas que irão ser objecto de análise dos deputados, pelo que se fica a aguardar para ver o follow-up pois como o esquema da legislação do futebol está montado, é de crer que algumas das propostas ultrapassem o âmbito específico da esfera política e como tal a terem que ser discutidas noutras sedes. Depois há também que observar se não existe matéria que colida com a legislação da própria FIFA. Seja como for, quaisquer propostas que tendam a melhorar o futebol português são bem vindas venham elas de onde vierem. Agora sem querer retirar mérito à iniciativa, quer-nos parecer que propostas deste tipo não deveriam ser apresentadas individualmente mas antes recolhendo uma maior participação, pois para além de poder melhorar as propostas, transmitir-lhe-ia por certo mais força e um maior peso. E isso só seria benéfico.






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