Ponto Vermelho
Imortal Eusébio
5 de Janeiro de 2014
Partilhar no Facebook

«A imortalidade é uma espécie de vida que nós adquirimos na memória dos homens», Denis Diderot.

Escrever sobre Eusébio da Silva Ferreira, por mais que se queira ser original, é sempre cair em lugares comuns, é repetir frases e palavras mil vezes ditas e reditas em todas as línguas e em todas as partes do Mundo. Porque Eusébio, o nosso Eusébio, não era apenas um símbolo do Bairro da Mafalala na outrora Lourenço Marques que o viu nascer e dar os primeiros pontapés em trapeiras, nem sequer do Benfica; era também uma referência incontornável deste pobre e pequeno País chamado Portugal, cujas fronteiras muito cedo galgou para chegar a todos os sítios, de todos os continentes por mais recônditos que fossem, onde a par de outro símbolo eterno – a também nossa saudosa Amália –, levou a mensagem da sua classe, do seu talento e da sua humildade a todos os cantos do Mundo.

As novas gerações não sabem o que perderam pois apenas têm a possibilidade de o rever em vídeos de deficiente qualidade e a maior parte ainda a preto e branco ou através dos relatos dos seus pais ou dos seus avós. Mas quem teve a suprema felicidade de o ver jogar, ficou a saber desde essa altura que há fenómenos que não são cíclicos e jamais se repetem, porque a exclusividade das suas características únicas não admitem comparações venham elas de onde vierem e sobre quem quer que seja, não querendo isto significar que não houvesse ou não hajam em todas as épocas, talentos a pedir meças ao longo da sucessão dos tempos. Simplesmente Eusébio foi único e por isso ganhou com inteiro mérito e justiça um lugar imortal na História. Por isso há-de ser sempre recordado como o “King”.

Muito dificilmente existem pessoas, por mais méritos que possuam, que ultrapassam o patamar destinado aos heróis e que conseguem reunir consenso integral numa sociedade altamente estratificada. Para mais no futebol onde as paixões exacerbadas adquirem, a cada passo, laivos e comportamentos irracionais em todos os sectores clubísticos, independentemente das pessoas e da posição que ocupam. Eusébio, podemo-lo dizer sem hesitações, era benquisto em todos os clubes e por todos os adeptos, mesmo sem esconder a paixão e o fervor que nutria pelo seu clube de sempre, e que em todos os dias e em todas as ocasiões fez questão de demonstrar publicamente sem que isso ferisse a sensibilidade dos adeptos dos outros clubes.

Para além da sua força física, da sua imprevisibilidade e, sobretudo, do seu inesgotável talento, tinha uma característica incomum em todas as personalidades que atingem outra dimensão e são ídolos de todas as gerações: a humildade que sempre demonstrou, não fingida mas sempre genuína que sensibilizava de imediato todos os que com ele privavam. Todos os que o conheceram de perto sabem que era um emérito contador de histórias e uma personagem única e cativante longe da inacessibilidade que estamos habituados a ver em muitas vedetas de pacotilha que se afogam na pseudo imensidade do seu ego egoísta.

Das incontáveis imagens que neste momento desfilam pela nossa imaginação recordamos ao acaso, apenas algumas que ficaram para sempre gravadas na nossa memória: a sua estreia na antiga Luz com o Atlético em que fez questão de deixar a sua assinatura com 2 golos, a inenarrável jogada que redundou em golo contra os suíços do La-Chaux–de-Fonds para a então Liga dos Campeões também na Luz, o golo impossível marcado à Juventus na execução de um livre na zona do meio-campo para a mesma prova, a reviravolta contra a Coreia em que marcou três golos no Campeonato do Mundo em Inglaterra e, finalmente, a imagem que correu mundo de um Eusébio inconsolável depois da eliminação da Selecção Portuguesa na mesma prova. Breves flashes de uma vida cheia de emoções e de proezas futebolísticas que ficam a marcar para sempre a sua passagem pelo mundo do futebol e que há muito passaram a ser património imaterial da humanidade.

Perante um futebolista desta dimensão e de uma personalidade que atingiu patamares só acessíveis a um número restricto de mortais, não há palavras que jamais possam descrever nem sequer aproximar-se de quem foi o cidadão Eusébio da Silva Ferreira, do que foi o futebolista imortalizado como “Pantera Negra”, do que representou para milhões de pessoas em todos os continentes. Foram muitas as homenagens que teve oportunidade de receber em vida das mais variadas instituições e personalidades, dos mais diversos quadrantes, dos seu pares que sempre apreciaram e reconheceram o seu talento único, mas ainda assim insuficientes para um futebolista e para um homem que ultrapassou as fronteiras terrenas e se passou a situar na esfera da imortalidade. Dizer que se perdeu um dos maiores símbolos desta pátria lusa acaba por ser uma generalidade porque nos ultrapassa a todos. Eusébio partiu para sempre mas as suas façanhas, aquilo que representou para milhões e milhões de pessoas ao longo de várias gerações em todo o Mundo, ficará para sempre registado nos anais da sua história imorredoura. Até um dia, ídolo da nossa juventude!






Bookmark and Share