Ponto Vermelho
Um novo dia triste
6 de Janeiro de 2014
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No dia em que Eusébio nos deixou definitivamente, faltam-nos o engenho e as palavras para que com um mínimo de rigor possamos retratar a sua incomensurável categoria. Como futebolista de eleição e como ser humano de excepção. Passámos a admirar Eusébio desde o momento que o vimos jogar pela primeira vez mas, por muito que soubéssemos, por muito que ouvissemos falar, estávamos longe, muito longe, de imaginar as histórias incríveis que têm sido contadas por quem com ele de perto privou e que por exigências da altura tinham ficado na gaveta por manifesta impossibilidade de serem divulgadas. Se houve algumas que faziam parte do segredo do balneário, outras houve que mereciam ter chegado ao conhecimento público para que se ficasse a conhecer a personalidade fascinante do Pantera Negra.

Existe, como se sabe, em todos os sectores da vida e em particular no futebol a tendência para o exagero. Muitas vezes levados pela paixão e pelas emoções incontroláveis do momento, assumimos posturas a roçar a irracionalidade em que depois, mais calmos, não nos revemos. Existe igualmente, na hora da partida, a propensão para o realce dos aspectos positivos dos traços da personalidade quando ao longo dos tempos foram assumidos outros de cariz contrário. São opiniões, valem o que valem, mas ainda assim não deixam de ser um facto. Este é um dos raros momentos em que divergimos de forma clara desse comportamento, porque em Eusébio, comum mortal com naturais defeitos, esses aspectos eventuais eram totalmente siderados pela sua raça, pela sua classe, pela sua generosidade, pela sua capacidade de sacrifício e, sobretudo, pela sua simplicidade cativante em que através dos seus exemplos de humildade fazia sentir às pessoas de todas as idades e em particular aos mais novos, a cada momento, que a vida é para ser vivida da forma mais simples. Exemplos apenas ao alcance dos grandes Homens.

Sabendo tudo isso, não seria de estranhar o que tem acontecido desde que se tomou conhecimento da infeliz notícia. Mas a sua transversalidade e dimensão se até surpreenderam os mais avisados, devem ter causado enorme espanto às novas gerações que se interrogam como foi possível a um jogador que desenvolveu a sua actividade durante 13 anos num país pequeno, periférico e isolado do Mundo devido ao seu sistema político, sem meios tecnológicos que se assemelhassem minimamente aos dias de hoje, tenha chegado onde chegou, em que a sua fama e o seu prestígio chegaram a todos os continentes e em que o único contacto associado a Portugal era ele mesmo. Qualquer pessoa que tivesse a oportunidade de viajar pelo estrangeiro fosse qual fosse o país, constatava isso a cada passo.

É incrível e brutal observar que passados quase 40 anos após ter terminado a sua carreira futebolística ao mais alto nível, o seu prestígio não só se manteve intacto como foi mesmo reforçado. O que só está ao alcance dos predestinados e daqueles que atingem o patamar dos eternos. Constatar as manifestações de pesar pelo seu desaparecimento do mundo dos vivos que ocorreram em todo o Mundo é algo que nos esmaga. As manifestações que ocorreram de forma expontânea em todas as latitudes e a homenagem prestada no mítico Old Trafford e pelo Real Madrid e transversalmente por grandes figuras do mundo do futebol e da sociedade, são vivo testemunho do apreço e gratidão que tinham por Eusébio, dando de alguma forma razão àqueles que consideram que Portugal foi demasiado pequeno para a sua genialidade.

Hoje o País e o Mundo prestaram-lhe a homenagem que ele merecia e amplamente justificava. Figuras de Estado e de todos os sectores da Sociedade ao mais alto nível, bem como uma multidão anónima alheia à intempérie fizeram questão de dizer presente. Hoje, por imposição do Futebol que tantas divisões tem causado, houve unanimidade de pontos de vista e isso deve-se apenas e só à figura que Eusébio representou e continuará a representar para todos os portugueses. Apenas dois reparos; com a devida ressalva, não demos por o FC Porto se ter feito representar oficialmente o que não deixámos de achar estranho tratando-se de uma figura como Eusébio. A segunda observação prende-se com as declarações altamente infelizes da Presidente da Assembleia da República em que apenas devido ao momento que vivemos nos impede de classificar como mereciam.

O Mundo não pára entretanto e segue o seu curso inexorável. Há que deixar as emoções voltar ao seu estado de partida e darmos tempo ao tempo para podermos avaliar o imenso legado que Eusébio nos deixou e que nos enche a todos de responsabilidades porque devemos esforçar-nos para não o defraudar. Muita coisa pode e deve ser feita para que o futebol português atinja outra dimensão em todas as vertentes a começar pela diminuição da crispação latente que se tem observado. Do ponto de vista do Benfica é bom que saibamos recolher dele os ensinamentos, a humildade e essencialmente a coragem e a determinação para atingirmos objectivos porque essa será a melhor forma de cumprirmos os seus desejos e honrar a sua memória. Eusébio é um mito e perdurará para sempre!








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