Ponto Vermelho
Discussões peregrinas
7 de Janeiro de 2014
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1. Por breves e fugazes horas e aparte escassas vozes dissonantes, houve unanimidade em Portugal com Eusébio. Mais um triunfo que o king juntou nos dois últimos dias à sua incontável colecção, em que até o céu verteu lágrimas de tristeza e desespero por vê-lo partir da vida terrena. E ontem, o Mundo curvou-se perante a sua memória que perdurará para sempre nas mentes de cada um, demonstrando que quando alguém é verdadeiramente grande no talento e na humildade, as fronteiras deste pequeno país são sideradas por uma globalização que Eusébio começou a projectar quase 40 anos antes.

2. Realçar pois aqui a figura do Homem e do futebolista de eleição, nunca sendo demais, é afinal chover no molhado. O próprio Mundo encarregou-se de o fazer e sucederam-se as manifestações e as homenagens em todas as partes do globo. Mas nesse intenso e prolongado desfile de evocações e homenagens à sua figura e à sua obra, pena foi que algumas figuras e instituições tenham feito questão de demonstrar a falta de senso e de classe de que são embuídos, ao não marcarem presença no último adeus à Pantera Negra. Nenhuma rivalidade por mais doentia que seja justificava a falta de elementos do FC Porto num evento desta natureza em que se dizia o último adeus a um dos portugueses mais ilustres, como nada igualmente podia justificar a ausência dos presidentes da FIFA e da UEFA em face daquilo que Eusébio representou para o futebol europeu e mundial ao longo de mais de 50 anos.

3. Ontem, por todos os motivos e mais alguns, devia ter sido um dia de foco completo no que ao triste evento diz respeito em que todos os aspectos laterais deviam ter sido deixados de fora. Por respeito a todos a começar pelo próprio Eusébio e à sua família submergida pela dor da partida e, numa outra dimensão, a toda a família benfiquista ela própria a viver momentos de grande emoção e tristeza por ver partir o seu filho mais querido. Não foi entendido assim e foi pena mas, para sermos francos, não ficámos surpreendidos pela precipitação dos acontecimentos tendo em consideração os comportamentos e atitudes anteriores.

4, O momento configurava um turbilhão de emoções e por isso mesmo deveria ter sido, dentro do humanamente possível, de recolhimento. Porque ao não se respeitar essa regra básica imposta pelo bom senso, corria-se o risco de se enveredar por caminhos escorregadios que apenas conduzem à confusão que tende a aumentar exponencialmente se os intérpretes forem figuras institucionais. Há questões que sendo de grande significado e responsabilidade não podem ser lançadas para o ar com a ligeireza que sempre indicia precipitação. Não estando em causa de nenhum modo a justeza do facto em si, o que deve ser considerado nestas circunstâncias é o timing adequado para ser aflorado, atendendo a que se trata de uma questão de Estado e não de mera politiquice oportunista.

5. Não encontramos nas declarações despropositadas e mal medidas da Presidente da AR nenhuma razão de ser. Por não ser de nenhum modo o momento propício para as fazer e sobretudo pelo seu teor, uma vez que pelo lugar que ocupa deveria abster-se desse tipo de comentários numa altura tão delicada que exigia a maior prudência e ponderação. Debitar argumentos financeiros falacciosos quando estava em causa um dos mais ilustres portugueses do século XX e que tanto fez por Portugal, revela não só insensibilidade, injustiça e ingratidão, como absoluta falta de bom senso e sentido de Estado.

6. Também outros politicos com responsabilidades resolveram, aproveitando o momento, pôr o carro à frente dos bois. Nem sequer merece discussão a possibilidade dos restos mortais de Eusébio serem transferidos para o Panteão Nacional tal a justeza e consenso de tal medida. A questão não é essa. Há que dar tempo ao tempo, deixar acalmar as emoções e a tristeza e só depois com mais tranquilidade, encetar uma discussão alargada sobre o lugar considerado mais adequado para a sua última morada. Obrigatoriamente à altura da sua dimensão e da sua grandeza.

7. Eusébio nasceu em Moçambique mas foi como português que o Mundo o conheceu. Foi com a camisola do Benfica que se projectou e ao fazê-lo, deu a sua fortíssima contribuição para que o nome do clube fosse conhecido e tivesse adquirido um imenso prestígio além fronteiras que ficou registado para sempre. Existindo essa simbiose perfeita, entendemos que aparte a indispensável opinião da família, é preciso em primeiro lugar que os benfiquistas reflictam sobre um assunto de tão transcendente importância, até porque a sua figura extravasa o âmbito clubista e é transversal à sociedade portuguesa. Daí que seja necessária muita reflexão e ponderação, não sendo este o momento adequado para esse tipo de análise e decisão. Há que dar tempo para não haver precipitações!






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