Ponto Vermelho
Fria realidade
8 de Janeiro de 2014
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Enquanto se vão esbatendo lenta e gradualmente os ecos da partida sem regresso do mais genial futebolista português de todos os tempos e a vida retoma o curso normal dos dias tristes, têm sido notícia algumas anormalidades que destoaram e contrastaram com a quase unanimidade da ocasião. Das declarações institucionais estapafúrdias de Assunção Esteves que ocupa o 2.º lugar na hierarquia do Estado, às do antigo Presidente Mário Soares realmente sem classificação pela fraseologia rasca utilizada, à imediata boleia de vários membros de partidos políticos, tudo fluiu nos últimos dias tendo Eusébio como pano de fundo. O que só realça a sua importância como desportista e como Homem no contexto do País, bem como o forte contributo que deu para a acção globalizadora do Mundo.

Outro acontecimento lateral e menor que aconteceu e que só chamamos à colação por haver ainda gente que tem da lição de vida de Eusébio enquanto adepto-praticante incondicional do fair play e da postura de máximo respeito pelos adversários que defrontava que para ele o eram apenas durante os jogos, uma ideia absolutamente errónea e desvirtuada que urge corrigir se alguma vez tiverem essa capacidade. O que para sermos francos duvidamos seriamente. Referimo-nos como não podia deixar de ser, às retaliações (???!!!) perpetradas por alguns indivíduos alegadamente ligados a uma claque do Benfica que resolveram dar largas à frustração que nunca os abandona, vandalizando símbolos e adereços de outras cores clubísticas, o que levou à intervenção da estrutura encarnada de recolher os restantes para os proteger.

Eusébio, sendo uma figura e um enormíssimo símbolo do Benfica, é de igual modo, pertença de todos os clubes, de Portugal e do Mundo. Foi esse respeito e essa admiração que adeptos adversários quiseram demonstrar pela sua figura e pela sua imagem, a despeito de tantas e tantas vezes os seus clubes terem sido batidos sem só nem piedade pela força das suas arrancadas, pela genialidade das suas jogadas, e pela violência e precisão dos seus remates que só paravam no fundo da baliza. E o simples facto de isso ser reconhecido nos dias de hoje por adeptos adversários quando existe tanta animosidade e crispação dentro e fora dos relvados, devia ter sido respeitado e reconhecido por quem teve a infeliz e despropositada ideia de praticar tais desmandos. Precisamente o contrário daquilo que Eusébio sempre defendeu dentro e fora dos relvados. Bem sabemos que foi apenas uma meia-dúzia sem qualquer expressão, mas ainda assim deveriam ter parado para pensar pois acabaram por desrespeitar a própria figura do King que pareciam querer como exclusivo.

Este conjunto de notas negativas acaba por demonstrar a fria realidade dos nossos dias que é bom que nos lembremos ajudámos a construir, e de que todos somos culpados por acção e de forma esmagadora por omissão. Quando ao mais alto nível nos são transmitidos exemplos do mais puro economicismo egoísta em que brilhantes mentes a rogo de interesses que nunca foram os nossos têm insistido em conduzir o país a patamares claramente situados dentro de um vergonhoso terceiro-mundismo europeu, não podemos de forma nenhuma esperar que os nossos filhos e os nossos netos possam beber educação e receber actos de cidadania exemplares para, ao crescerem, se tornarem compreensivos e tolerantes. O que nos vale é que a maioria não cede à tentação dos maus exemplos que vê praticar como uma vez mais ficou patente, apesar da grande convergência do momento.

Quis o acaso que um clássico Benfica-FC Porto viesse a ter lugar uma semana depois de Eusébio nos ter deixado. Apesar da natural tentação de se começar a antecipar as incidências e de perspectivar o que poderá vir a ser o jogo, importa antes de mais tentar vê-lo da forma que o Rei apreciaria. E nesse particular cremos não errar muito se dissermos que ele gostaria de ver um jogo rijamente disputado com cada jogador encarnado a lutar em cada lance como se fosse o último e, no final, conseguir a vitória como forma genuína de materialização dos seus desejos e anseios de benfiquista. Dos adeptos que enchessem o estádio criando um cenário de empolgamento que se transmitisse das bancadas ao relvado para que os jogadores sentissem um apoio inequívoco e galvanizador, uma atmosfera de que ele próprio tantas vezes se viu rodeado. Tudo, dos jogadores aos adeptos, em perfeita simbiose e no respeito pelo fair play que sempre defendeu. Era, sem dúvida, a melhor forma de honrarmos a sua memória eterna.










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