Ponto Vermelho
Justiça enviezada
9 de Janeiro de 2014
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1. Como que a querer fazer esquecer rapidamente as imprevistas e disparatadas declarações da Presidente da Assembleia da República, os Grupos Parlamentares aprovaram em tempo record a transladação dos restos mortais de Eusébio da Silva Ferreira para o Panteão Nacional. Medida que como se sabe obedece a uma intrincada burocracia à portuguesa e que por isso levará algum tempo a ser cumprida. Mas pelo seu ineditismo a decisão merece ser sublinhada, não só pela rapidez inabitual com que foi tomada, como pelo facto de ter havido unanimidade uma coisa raríssima de acontecer no Parlamento Português. Mais um acontecimento quase único porventura que Eusébio conseguiu protagonizar após a sua partida para a eternidade.

2. Um pouco como nota de rodapé mas que merece ser assinalada, a decisão do empresário António Frias radicado há muitos anos nos EUA e amigo pessoal de Eusébio e a quem se deve a iniciativa da inauguração de uma estátua em 2006 em sua honra no Gillete Stadium em Boston, de contribuir com a verba de € 50.000 para a sua transladação para o Panteão. Foi uma tremenda chapada de luva branca na sovinice do Estado Português cujos representantes apenas enxergam folhas de cálculo de aplicação duvidosa tal o buraco em que nos meteram. Assunção Esteves, finalmente, já deve ter assimilado o alcance das suas palavras que jamais deviam ter sido proferidas. No tempo e no modo.

3. A decisão desde a primeira hora reclamada por figuras importantes da sociedade portuguesa e sem necessitar de referendo tal o unanimismo popular que recolheu (por muito que isso aflija alguns intelectuais que abominam tudo o que esteja relacionado com o pontapé na bola), é inteiramente justa e a prova indiscutível que Eusébio irá para o lugar que merece pelos serviços relevantes que prestou a Portugal e aos portugueses em tempo real quando o país vivia mergulhado num regime obscurantista e desprezado pelo Mundo, e que continuou a prestar como grande embaixador luso até ao momento em que a morte o levou desta sua fase terrena. E que doravante continuará.

4. O Estado Português que tanto deve à sua figura, limitou-se pois a materializar o sentimento do povo e não só o do futebol. Eusébio estará no sítio onde justifica estar por direito. Todavia, se por um lado aplaudimos esse acto de justiça, por outro, sentimos já a crescer dentro de nós alguma nostalgia. Talvez seja o nosso lado de adeptos do futebol, será porventura o nosso coração de benfiquistas a ditar leis, mas para sermos inteiramente francos, gostaríamos mais que passasse a estar no espaço que ele tanto amou e que foi a sua segunda casa – o Estádio da Luz. Certamente que ele não enjeitaria a ideia de estar permanentemente junto dos benfiquistas a quem tanto deu e tantas alegrias proporcionou.

5. O seu nome irá estar, sem nenhuma surpresa, perpetuado em todos os lugares da diáspora onde estejam portugueses, mas a sua universalidade leva a que se possa constatar que nesse particular não haverá exclusivos, pois em todos os lugares e sem distinção de raças, credos ou religiões a sua memória será sempre recordada. Como se tem visto e como certamente se continuará a ver. Por cá, já houve autarquias que anunciaram ir atribuir o nome de Eusébio a determinadas artérias na área da sua jurisdição e é expectável que outras venham a seguir o exemplo a par de outras iniciativas. Que nunca serão de mais.

6. No tocante ao Benfica, já houve quem manifestasse a opinião de que o actual Estádio da Luz seria o indicado para ostentar o nome de Eusébio. Por sua vez o Presidente do Benfica já deu testemunho público de haver a intenção de rebaptizar o actual Caixa Futebol Campus com o nome de Eusébio logo que o contrato em vigor com a CGD expire. Não estando sequer em causa que uma das grandes estruturas desportivas deva passar a ter o nome do Pantera Negra, por estar ainda tudo muito fresco é uma ideia que tem que ser ponderada e amadurecida. Pela nossa parte nada temos a opôr a qualquer dos espaços. Julgamos todavia que pela sua ligação e pelo carinho que sempre manifestou pelos mais jovens o Centro de Formação do Seixal talvez fosse o espaço mais adequado, até porque seria um forte e permanente incentivo aos jovens que irão almejar, pelo menos, uma parte do êxito que ele conseguiu.








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