Ponto Vermelho
Domingo há clássico
10 de Janeiro de 2014
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É a mais pura das verdades que a marcha inexorável do tempo não permite que fiquemos por muito tempo a meditar nas tristezas, pois o amanhã já está a despontar no horizonte e chegará sem se importar com as nossas mágoas e os nossos problemas. Sejam eles quais forem. Tem sido uma semana complicada, muito mais difícil do que alguma vez imaginámos, apesar de ter acontecido um facto que sendo inevitável nos atinge a todos por igual, faltando apenas que seja determinado o momento exacto da nossa partida. Mas a despeito de todos sabermos isso mal despontamos para vida real, a realidade é que nunca estamos preparados mesmo quando a corrosão da idade e da vida dá indícios de querer apressar a nossa viagem sem retorno.

Depois, e isso só está reservado a uma muito escassa minoria como Eusébio, por mais que soubéssemos, por mais que tivéssemos ouvido, por mais que tenhamos observado, só adquirimos verdadeira consciência da amplitude da sua obra e do que representou a sua vida terrena, após a sua partida e quando o Mundo de forma transversal a uma só voz reverencialmente se curvou perante o seu desaparecimento. Já quase passou uma semana, estamos em vésperas de um clássico que fossem outras as circunstâncias seria objecto de grandes parangonas e de intensa e participada discussão e, afinal, continuamos a falar do mesmo, sempre do mesmo, como se o jogo não fosse importante e não se realizasse já no Domingo à tarde.

A generalidade da imprensa, como lhe compete, tem feito esforços para projectar o jogo. Diversos articulistas a ele se têm referido avançando com os seus comentários e previsões, mas de forma algo curiosa parece haver uma estranha indiferença como se o jogo não tivesse lugar e como se não estivesse em jogo um resultado que pode dar forte alento ou causar mossa séria em qualquer das equipas para o resto do campeonato. Ou então, que o mal seja dividido pelas aldeias e nesse caso a merecer os vivos aplausos do Sporting caso consiga vencer na sua deslocação à Amoreira o que convenhamos não é líquido de todo. Estamos em crer, todavia, que à medida que se entre na contagem decisiva o entusiasmo crescerá e aproximar-se-á do ambiente normal que rodeia os clássicos.

O cartaz é aliciante. O jogo é disputado a horas do passado (às que tantas vezes Eusébio espalhou a sua magia e inigualável classe) e logo isso transmite outra apetência e outro entusiasmo. Desde que a televisão devido a óbvios interesses começou a impor a sua ditadura de horários, há quanto anos não tínhamos um clássico ás 4 h da tarde? Parece de facto uma miragem mas é bom que este exemplo transmitido pelo Benfica e BTV se espalhe a outros jogos da Liga para que as famílias possam regressar aos estádios de onde têm andado arredias porque os horários dos jogos não são compatíveis com os seus interesses familiares. Olhem para o exemplo da Premier League e vejam como os estádios estão sempre a abarrotar apesar de poder haver jogos à mesma hora. Mas o horário (e não só evidentemente…) continuam a fazer a diferença.

Depois porque é o primeiro clássico a seguir a Eusébio nos ter deixado. Qualquer que seja a equipa que saia vencedora (e esperamos que seja o Benfica como é evidente), quererá dedicar-lhe a vitória. Mesmo com a intensa rivalidade que existe entre os dois emblemas e mesmo com os ambientes tensos que sempre ocorrem quando se defrontam. No entanto, é nossa convicção de que desta vez, pelos motivos que se conhecem, os habituais jogos florais ficarão de fora. E sendo que cada uma das equipas quer vencer para não se atrasar, poderá estar em perspectiva um jogo intenso, provavelmente não muito bem jogado, mas onde os jogadores se esforçarão ao máximo para vencerem com a dignidade que a ocasião impõe.

Havendo naturalmente maior pressão, os jogadores encarnados que viveram uma semana atípica e repleta de emoção, estarão por certo com acréscimo de motivação e quererão por certo vencer para terem a oportunidade de poderem dedicar a vitória à figura ímpar que tanto apoio lhe deu e que acabaram de ver partir. Para além de se esperar que todas as incidências do jogo dentro das quatro linhas e fora dele tenham um cariz de normalidade, façamos por cumprir os desejos da família de Eusébio: – respeitemos integralmente o minuto de silêncio. É certo que de há um tempo a esta parte se generalizaram os aplausos (uma prática que ainda não conseguimos compreender, a menos que tenhamos uma noção errada do que é o silêncio), mas por uma vez respeitemo-lo. É esse o nosso apelo.








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