Ponto Vermelho
Apreensões
15 de Janeiro de 2014
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Em maré de globalização com todas as virtudes e defeitos, percebe-se que o mais simples espirro dado por alguém no país mais insignificante, seja objecto de múltiplas análises de quem está sempre atento à possibilidade de realizar bons negócios. E é dos livros que quando mais problemática for a situação de um país, de uma empresa, de um clube ou de uma pessoa, maiores são as chances de virem a ser feitos negócios que obrigam a quem tem de pedir emprestado ou é forçado a vender, a realizar as operações muito abaixo do seu real valor. Veja-se por exemplo a nível de Portugal, com o dinheiro dos juros aos usurários que já liquidámos, quantos investimentos estratégicos não tinham sido efectuados para o desenvolvimento da nossa economia.

São estas as regras do jogo montadas em palco antecipadamente preparado. Por questões várias a começar pela nossa tradicional bonomia, conformismo e incapacidade de reacção, nunca se conseguiu dar a volta a este vector fatalista. E as perspectivas é que assim iremos continuar, sujeitando-nos às viciadas regras do jogo que parecem continuar a penalizar-nos ad eternum. A recorrência é de tal ordem que sempre que sucede mais um caso, olhamos para ele de forma passiva e submissa como se a inevitabilidade fosse uma regra inibidora de acordarmos, bater o pé, e exprimirmos a nossa firme discordância quiçá mesmo a nossa indignação. Salvo raríssimas excepções, a serenidade sempre fez parte da nossa matriz de povo e por isso estamos como estamos. Devemos pois, em primeiro lugar, queixar-nos de nós próprios.

No ambiente muito próprio do futebol vive-se a mesma conjuntura e respiram-se as mesmas circunstâncias adversas. Quem tem poder (e neste caso dinheiro em abundância sem que ninguém se preocupe com a proveniência) exerce-o não importando como, e usufrui de benesses que contrapõem às dificuldades dos outros. Na recente Gala dos ‘Óscares’ da FIFA que consagrou o português Cristiano Ronaldo como melhor jogador Mundial do ano, constatámos isso mesmo de forma aliás pouco refinada, com exemplos da mais viva hipocrisia protagonizados por vários artistas que pelos lugares que ocupam deviam a todo o custo evitar, se porventura alguma réstea de vergonha os acompanhasse. Que como vimos anda ausente. Referimo-nos em concreto ao tridente Blatter-Platini-Valcke que nem sequer conseguiram disfarçar a azia que os afligia e não conseguiram controlar os seus impulsos de parcialidade da sua vontade francófona. Nesse particular Pandiani foi sincero…

A janela de Janeiro que permite as transferências para os reajustamentos dos plantéis, é nem mais nem menos do que uma vontade imposta pelo poder do dinheiro dos clubes mais poderosos que assim têm a possibilidade de adquirir jogadores a preços simpáticos, satisfazendo ao mesmo tempo o séquito ávido de milhões que gravita à sua volta. Do outro lado os clubes de menores recursos e de possibilidades limitadas são praticamente obrigados a vender devido à pressão exercida por esses clubes, pelos jogadores, pelos empresários e por toda a pandilha que almeja por comissões. E, não menos importante, pelos credores (banca e investidores). O produto do negócio, depois de descontada a infindável panóplia de comissões sempre associada, é de imediato canalizado para cumprir as responsabilidades assumidas e nem chega a aquecer a tesouraria dos clubes. Que, para além do mais, ficam desfalcados dos activos como agora se diz, enfraquecendo as equipas e facilitando ainda mais a tarefa da banca e dos endinheirados. E, para o semestre seguinte, voltamos a ter mais do mesmo…

O Benfica, tal como todos os outros clubes portugueses, enquadra-se nesta situação. Tenta comprar barato para potenciar jogadores e vender mais caro. É um círculo vicioso em que tem realizado significativas mais valias, mas por outro lado nunca consegue ter a equipa estabilizada para além de não estar, igualmente, a conseguir reduzir o passivo. É certo que tem efectuado investimentos assinaláveis, mas se as obras relevantes levadas a cabo enriquecem o património e permanecem como marcos importantes do clube no presente e no futuro, como clube intrinsecamente desportivo o seu sucesso mede-se, como não podia deixar de ser, pelos sucessos desportivos da sua equipa de futebol. Que como se sabe estão muito aquém do binómio investimento-rentabilidade.

Numa altura em que atingiu o 1.º lugar do campeonato definido como o seu principal objectivo, o Benfica vendeu, para já Matic e, muito provavelmente não ficará por aí. É conhecida a importância que o sérvio tinha no esquema táctico da equipa, como são conhecidas as suas afirmações, há algum tempo, de que iria permanecer até final de época. Sendo que as palavras valem o que valem, estranhamos no entanto a sua venda agora, principalmente pelos valores anunciados quando no início da época foi exigido o valor da cláusula rescisória. Enxergamos a vontade dos empresários, percebemos o desejo do jogador de ir para “uma Liga mais competitiva” onde anteriormente tinha sido preterido, compreendemos até as eventuais pressões dos credores bancários, mas não nos parece de todo que vender agora e sobretudo pelos valores que se anunciam tenha sido a melhor opção. Será que não podia esperar até final da época? Avolumando-se as dificuldades, esperamos todavia que, apesar de tudo, sejam atingidos os objectivos. E por aqui nos ficamos… para já!








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