Ponto Vermelho
Desfile de fait-divers
18 de Janeiro de 2014
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1. Confessamos que não demos especial ênfase às recentes palavras de Jorge Jesus em conferência de Imprensa sobre a saída de Matic. A alusão à dezena de anos referente à questão se havia algum elemento na Formação que podesse preencher os requisitos para substituir o excelente jogador sérvio foi o grande destaque da imprensa, e daí tornar-se rapidamente viral nas redes sociais e nas conversas de café. É a dimensão do Benfica a funcionar que faz com que qualquer questão de lana-caprina atinja patamares de grande projecção mediática em que em vez de se discutir o essencial opta-se por divagar sobre o acessório. E com isso adiam-se constantemente as questões de fundo que continuam a marcar o futebol português e o desenvolvimento sustentado de jogadores com pretensões legítimas de virem a ser alguém no xadrez do futebol.

2. Este tema nem sequer mereceria qualquer abordagem da nossa parte não fosse estar a ser objecto da análise e comentários de insignes opinion-makers. Como sempre acontece, sem prejuízo das livres opiniões contra ou a favor, tem havido alguns que deixam muito a desejar porque se desviam do fundo da questão para enveredarem por abordagens de teor lateralizante mas que não contribuem de nenhum modo para uma análise descomprometida, séria e transversal a todo o nosso futebol e, numa perspectiva mais abrangente a toda a sociedade portuguesa. O folclore e o imediatismo nunca deram resultado quando se pretende resolver um problema de atraso de mentalidade de décadas que tem castrado o natural anseio de irmos mais além.

3. Devia ter dito Jorge Jesus o que disse e sobretudo da forma como o disse? Deveriam ter reagido os jovens jogadores e utilizar a fórmula de divulgação a que recorreram? A resposta mais óbvia é não! Tenderá a cair-se na tentação de argumentar que a segunda é uma reacção legítima de quem se sente menosprezado e só aconteceu como consequência da primeira. Não o entendemos assim. A ideia de Jesus (aparte alguma fraseologia deslocada), é não só lógica como verdadeira. Muito mais do que disse foi o que quis dizer e nesse particular estamos de acordo: um jogador com as características físicas-técnicas e tácticas de Matic provavelmente não haverá na próxima dezena de anos. Deverá isso ser entendido como menosprezo e um atestado de incompetência aos outros jogadores e aos aspirantes que gravitam na Formação? É claro que não, pois tratou-se de um elogio a um jogador e isso, ao contrário de muitos julgam, não é nem pode ser julgado como menor apreço e falta de reconhecimento pelos outros. Enaltecer alguém não é apoucar os demais.

4. Mais; declarações do teor das que estamos a focar por mais cruéis, frias e aparentemente distantes que possam parecer (desde que verdadeiras e realistas), devem constituir um desafio a todos os jogadores para se superarem e provarem que são alternativas válidas e que estão dispostos a fazerem sacrifícios para singrarem na carreira. Para apenas citarmos os mais emblemáticos casos de sucesso, diríamos que o nosso Eusébio para além do seu incomensurável talento e humildade só atingiu o patamar dos eleitos porque sempre acreditou nele próprio e se sacrificava em prol da profissão e de ser melhor em cada dia. Nos tempos actuais Cristiano Ronaldo também ele um predestinado mas com o constante desejo de progredir sempre em mente, trabalha sempre mais conforme é reconhecido por todos aqueles que mais de perto o acompanham.

5. É nestes exemplos que nos devemos centrar e muito em particular todos os jogadores sobretudo os mais jovens. Mais do que estar a perder tempo com questões laterais que só satisfazem alguns sectores sempre ávidos de confusão, importa focalizar os aspectos que concorrem para progressos pessoais e de conjunto e sobre a melhor forma de os atingir. Com massa crítica mas com inteligência, pois para andar na crista da onda que seja pelos melhores motivos. Por tudo isso, não compreendemos como se insiste em alimentar continuamente fait divers que podem servir para a maledicência e para animar as tertúlias e a imprensa mais sensacionalista, mas não contribuirão de modo nenhum para resolver as questões de fundo. E essas são alterar mentalidades, aperfeiçoar métodos, aumentar o trabalho, a organização, o espírito de sacrifício, a intensidade e a disciplina. Se o fizermos de vez, surgirão certamente muitos mais jovens jogadores a singrarem e a não ficarem pelo caminho como tem sido recorrente. E se existe culpa dos clubes por nem sempre concederem o apoio devido na fase crítica da transição, muitos dos jogadores deixam-se inebriar pelo sucesso quando ainda não atingiram qualquer estatuto e embarcam em falsas promessas dos habituais vendedores de ilusões. Por isso falham quando tinham tudo para o conseguir.










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