Ponto Vermelho
Triste fado!
21 de Janeiro de 2014
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1. Dando seguimento a uma antiga reivindicação da classe da arbitragem e de algumas personalidades influentes no meio, o presidente federativo Fernando Gomes incluiu no seu programa eleitoral o item da profissionalização do sector, vector que recolheu o apoio tácito de alguns clubes e em particular do presidente encarnado, cansado que estava dos sucessivos roubos de igreja que custaram vários campeonatos ao Benfica, bem como do facto da verdade desportiva estar a ser sistematicamente vilipendiada. Conhecendo-se os resultados de décadas, valia a pena testar outra solução de que pudesse resultar uma melhoria no sector para impedir que os benefícios sistemáticos fossem individualizados.

2. A questão teve que ser previamente ponderada devido à sua complexidade e em particular aos custos financeiros que implicava. Apresentado com pompa e circunstância, o projecto arrancou na primeira fase com nove árbitros internacionais FIFA e decorrerá até final da presente época desportiva. Como é habitual nestas circunstâncias proliferaram as vozes em todos os sentidos, distinguindo-se duas teses contraditórias – os que acham que tal medida irá propiciar uma substancial melhoria na arbitragem portuguesa, e os que não acreditam que a mesma por si só, venha a resolver os problemas de fundo de décadas.

3. A prudência recomendaria que se aguardasse até final da época para ser feito o balanço. Mas apesar de algumas bravatas protagonizadas pelo jovem presidente do Sporting recém-chegado ao mundo do futebol, a 1ª volta, apesar de ter revelado alguma acalmia, não deu para tirar conclusões consolidadas que permitissem aquilatar dos avanços ou retrocessos da nova fase que se está a viver. Mas o facto de se ter entrado na fase decisiva do campeonato e das outras provas, começando a estreitar-se o caminho que dá acesso aos milhões da Champions com a surpresa de haver três candidatos em disputa acesa, fez disparar a campainha de alarme nalgumas latitudes que davam o objectivo como antecipadamente garantido.

4. Importa entretanto sublinhar que no caso das diatribes repetidas de Bruno Carvalho, o Presidente do Conselho de Arbitragem manteve-se mudo e quedo como que a não querer dar qualquer importância ao sucedido. Percebia-se, a despeito de alguma recorrência, que o douto presidente não queria entrar em diálogo com os presidentes dos clubes, mesmo que os seus comandados bem ou mal pouco importa agora, estivessem a ser atacados na praça pública e o sector a que preside estivesse a ser posto em causa. Ainda que a decisão pudesse ser vista como negativa e configurasse a velha estratégia corporativa do silêncio compulsivo uma prática de sempre do sector, aguardava-se que se mantivesse esse critério de coerência, excepto se algo de muito transcendente viesse a acontecer.

5. Não foi preciso esperar muito tempo para se perceber que a coerência não é a característica mais vincada do Presidente do Conselho de Arbitragem. Bastou que o inefável Pinto da Costa viesse debitar as baboseiras do costume, para que o até agora calado Vítor Pereira se tornasse loquaz. Apesar do inesperado esperar-se-ia que, a exemplo do que é prática corrente na arbitragem, o chefe dos árbitros viesse em socorro de Artur Soares Dias precisamente um dos árbitros que fazem parte da guarda avançada da profissionalização. Mas, surpresa das surpresas, Vítor Pereira achou por bem afirmar que ASD não ’tinha vivido um dia feliz no clássico’ .

6. Tratou-se de uma frase de interpretações múltiplas, que suscitou inevitavelmente três assumpções claras: 1) Pinto da Costa parece ter ainda muita força porque levou o Presidente do CA a reagir; 2) Condenou sem remissão o seu comandado Artur Soares Dias; 3) A frase não pode deixar de ser entendida como um apoio tácito às teses de Pinto da Costa que tentou capitalizar as erros de arbitragem para justificar o fracasso perante os adeptos portistas por um lado, e para tentar condicionar futuras arbitragens por outro. Sendo que a generalidade das críticas apontou erros ao árbitro ainda que para os dois lados, teria sido aconselhável a Vítor Pereira ter pormenorizado melhor o sentido das suas declarações para que não pudesse haver interpretações indevidas como está a acontecer.

7. Este procedimento do Presidente do CA revela que os traumas e subserviências do passado não estão ultrapassados quando era suposto que esta nova fase revelasse o começo de uma nova era conforme as expectativas optimistas dos responsáveis. O que reforça a tese daqueles que sempre duvidaram que os dinossauros iriam permitir de mão beijada a erradicação dos sintomas do medo que têm servido para condicionar o desempenho dos árbitros. Notam-se de facto algumas melhorias ténues mas pelos vistos não estamos livres de vir a haver, a qualquer momento, novos episódios do tempo volta para trás. Para seguir com atenção e curiosidade este tema e a actuação de Vítor Pereira, porque de Fernando Gomes o melhor é sentarmo-nos e esperar…






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