Ponto Vermelho
O outro lado do futebol
24 de Janeiro de 2014
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Até as pessoas que não ligam minimamente às questões relacionadas com o futebol estão cientes de que este é uma modalidade que movimenta milhões. O futebol transformou-se numa poderosa indústria e, como tal, qual El Dorado, tem atraído toda uma casta de interessados e um sem número de oportunistas sempre com a perspectiva de lucro fácil em mente. Essa tem sido uma consequência inevitável da evolução e do desmoronar dos pilares éticos e morais das sociedades contemporâneas que abandonaram os princípios para instituirem o salve-se quem poder como regra básica. E assim sendo, quem tem menores recursos e possibilidades tende a ser ignorado e trucidado sem só nem piedade. É a consequência dos tempos.

O desmoronar do bloco de leste trouxe à ribalta uma nova trupe que ficou multimilionária num ápice. E como é característica própria de qualquer novo-riquismo, tem sentido a irresistível tentação de se expandir a ocidente para dar provas insofismáveis do seu incomparável poder de compra, da sua opulência, e da sua necessidade de auto-afirmação. Quando se dispõe de muitos milhões de maneira rápida e fácil, a tentação é a de gastar com pouco critério, existindo um objectivo sempre presente no seu pensamento – o de demonstrar a sua capacidade financeira e o acesso à vida mundana por forma a que o seu ego vaidoso possa ser continuamente massajado. Poderão haver outras maneiras de sobressair nesse particular mas nenhuma se assemelha à visibilidade que dá o futebol.

Com essa firme convicção em agenda, são cada vez mais os multimilionários que estão a apostar no futebol e a injectar fabulosas fortunas, começando a expandir-se as origens e as nacionalidades. É um chamariz que cada vez atrai mais gente sugestionada por todas as nuances que só a indústria do futebol consegue transmitir. Excelente altura para o fazer dada a crise que tem assolado a Europa e clubes com história que já viveram melhores dias seja financeiramente ou por falta de resultados desportivos, têm-se tornado presas fáceis deste tipo de investidas. Para os adeptos desses clubes, passada a surpresa inicial rapidamente se habituam, porque para eles o que importa é ganhar independentemente de quem detem o poder. Foi assim que o desconhecido Chelsea ganhou a Liga Inglesa após 50 anos de jejum e venceu a Liga dos Campeões e a Liga Europa. Outros exemplos têm emergido noutros lados, incluindo Portugal ainda que à escala da nossa dimensão.

Actualmente é essa a imagem que transparece do futebol – uma fonte geradora de milhões que se renova e nunca se esgota. Vide o caso do Mundial do Brasil que tanta polémica tem dado e ainda está por se verificar como vai acabar. A fome e a miséria sempre conviveram mal com a ostentação em que alguns protagonistas ganham milhões e se exibem nas passerelles, enquanto o grosso da populaça tem que viver resignada ao seu inexorável destino de lutar diariamente para poder sobreviver. São assimetrias nada fáceis de resolver, atendendo a que a condição mais egoísta do ser humano que está na mó de cima leva-o a desejar possuir sempre cada vez mais. E depois a vontade política está subordinada aos interesses económicos e esgota-se na inércia.

Existem larguíssimos milhares de praticantes em todas as partes do globo que, a exemplo da minoria de previlegiados, aspiram à honra e à glória. Por um conjunto muito diversificado de razões, poucos, muito poucos, atingem tal desiderato. Quando o conseguem atingir, nem todos têm suporte para saber lidar com o sucesso e com o reconhecimento público interesseiro. Passam a ter multidões de amigos que muitas vezes nem conhecidos são, criando a falsa ilusão de preocupação com o seu bem estar presente e sobretudo futuro. Multiplicam-se as ofertas de negócios e investimentos que invariavelmente prometem lucros chorudos e asseguram um futuro risonho e tranquilo que, aparte a eventual bondade dos negócios, os jogadores não podem acompanhar por desinteresse e indisponibilidade. E quando o fazem é, bastas vezes, demasiado tarde.

Custa por isso ver jogadores que admirámos num passado recente e que ganharam o suficiente para serem independentes após terem terminado as suas carreiras, passarem dificuldades e mendigarem por um qualquer trabalho. Os tantos amigos que julgavam ter evaporaram-se num instante e abandonaram-nos quando eles mais precisavam e a solidariedade passou a ser um mito. Muitos agora até não resistirão a julgá-los como se alguma vez lhes assistisse o direito de o fazer. A vida é de facto um mundo-cão. Mas ficam os mais recentes exemplos dados à estampa por uma estação televisiva, comprovando-se que é preciso que as várias instâncias (Federação, Liga, Clubes, etc) dediquem atenção a este problema tentando minimizar os riscos para evitar estes tristes acontecimentos que envergonham um futebol que gera milhões e uma sociedade egoista. E é um forte alerta que todos os futebolistas que atingem o sucesso, em particular os mais jovens, deverão ter em conta.








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