Ponto Vermelho
Estabilidade procura-se...
27 de Janeiro de 2014
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1. A rapidez com que se têm desenvolvido as sociedades em todos os aspectos, tem arrastado consigo para além da evolução (positiva nalguns aspectos noutros não tanto), a instabilidade. O incremento das novas tecnologias de informação no mundo global permite observar a cada momento o que se passa em qualquer ponto do globo. A área específica que nos interessa – o desporto em geral e o futebol em particular –, não fugiu a esse big brother gigantesco sendo hoje possível tomar decisões e resolver questões pertinentes praticamente sem sair da zona de conforto.

2. Em paralelo, as assimetrias acentuaram-se pelo que é hoje visível a olho nu que o mundo do futebol financeiramente falando, está muito diferente para pior atendendo a que os regulamentos, para além de já não corresponderem, são constantemente torpedeados pela força do vil metal que dita as suas próprias regras e influi decisivamente na selva em que o desporto-rei se tornou. Sem que a FIFA e a UEFA ela próprias a sofrerem do mesmo mal, tenham vontade política ou sequer capacidade para alterarem as actuais regras de funcionamento que favorecem descaradamente os mais poderosos. A democracia, a justiça e a equidade estão cada vez a afastarem-se do futebol. Não é preciso sequer sair de Portugal para constatar isso.

3. Não enfileirando no leque dos previlegiados, os principais clubes portugueses têm que fazer pela vida que está cada vez mais difícil. Casar o desenvolvimento e sucesso desportivo com as exigências do equilíbrio financeiro não é nada fácil e faz lembrar certos casais que vivem cada um em seu lado… Comprar barato-formar rápido e vender caro tem sido a solução de há alguns anos a esta parte e diga-se a propósito com sucesso. Sobretudo o FC Porto que deu o pontapé de saída nessa saga por estar há anos na mó de cima, e logo a seguir o Benfica que nos últimos anos tem realizado importantes mais valias.

4. Dir-se-ia que essa seria a fórmula mágica para o equilíbrio da tesouraria, até atendendo ao facto de estarmos intervencionados e os bancos habituais fornecedores de crédito ilimitado terem sido obrigados a fechar a torneira por determinação dos novos patrões. A necessidade aguçou o engenho e a via que os clubes descobriram tem sido positiva para contrabalançar os efeitos da redução drástica do crédito bancário. Requer naturalmente uma boa organização e rede de olheiros que têm que perscrutar o futebol global sobretudo em mercados emergentes onde os valores que despontam ainda estão por enquanto ao alcance das bolsas portuguesas.

5. A necessidade premente de vender em todas as épocas, obriga a que os jogadores tenham que estar em exposição permanente. Alguns já vêm em trânsito e com o destino marcado. São aqueles cujos passes são detidos por pessoas e entidades que exercem a actividade de compra e venda e como tal, eles e os clubes-montra, têm que se submeter aos ditames dos donos-capitalistas que se dão ao luxo de escolher o futuro clube com antecedência. Não chegam a aquecer o lugar, o seu corpo está presente mas a sua mente já vagueia por outras paragens… Pelos vistos a actividade é altamente lucrativa dado que há cada vez mais empresários que dispõem de cash-flow em abundância para os adquirir por avultadas verbas…

6. Essas vendas tendem a causar instabilidade nas equipas. Porque os clubes estão sujeitos às regras do mercado selvagem e têm de aguardar em primeiro lugar que hajam compradores e depois regatear o preço. E como são obrigados a vender (e o mercado sabe isso), na generalidade dos casos a sua capacidade negocial fica diminuida à partida. Isso não tem impedido, todavia, que tenham sido feitos óptimos negócios com significativas mais valias, o que revela a capacidade dos nossos gestores. Com receitas acumuladas na ordem das centenas de milhões provenientes dessas vendas, esperar-se-ia que, paralelamente, os passivos já de si altos fossem sendo gradualmente reduzidos, ou numa versão menos optimista se mantivessem. Não é isso que temos observado e esse facto é passível de nos deixar preocupados.

7. Haverão concerteza fundadas razões para que isso aconteça. Só que o adepto comum do alto da sua modéstia e ignorância, consegue ver que a actividade futebolística continua a ser a mola real do clube. E, como tal, deseja que haja a estabilidade possível tendo em conta as contingências impostas pelos mercados, mas quer ver a sua equipa ganhar títulos com frequência. No Benfica, numa altura em que tem sido dado grande ênfase presidencial à componente Formação e esta começa a produzir em pleno, os adeptos gostariam de perceber a razão porque antes da maturação plena se inicie o fluxo de venda de jogadores. Certamente razões económicas poderosas dirão, mas ainda assim difícil de entender num ano de grandes eventos…






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