Ponto Vermelho
Fait-divers à portuguesa
29 de Janeiro de 2014
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1. O enormíssimo legado que Johann Gutemberg deixou à humanidade justificaria, sem sombra de dúvida, que todos os seus discípulos e aprendizes fizessem o possível por cumprir as regras impostas para a profissão sem se desviarem do objectivo principal: informar a opinião pública com rigor, com seriedade e sem quaisquer manipulações dos factos em presença. Infelizmente, a voracidade imposta pelas sociedade modernas em que as questões laterais acabam por ser o corpo principal da notícia tem determinado um abastardamento da sua originalidade acabando por chegar desvirtuada e empolada ao destinatário final.

2. Não é nem podia ser um exclusivo luso. E não é certamente por acaso que as maiores tiragens e as audiências mais significativas estão intimamente ligadas a aspectos mundanos da sociedade e da vida pessoal de tudo o que seja figura pública, fazendo-nos crer que as suas atitudes e os seus comportamentos têm forçosamente que diferir da enorme massa que somos todos nós. Como se fossem seres humanos infalíveis que nunca se enganam e raramente têm dúvidas. O que seria lícito exigir da sua parte era que enquanto figuras públicas, nos transmitissem os melhores exemplos o que está muito longe de acontecer.

3. Até há bem pouco tempo, a imprensa detinha o exclusivo das notícias tratando-as da forma como achava mais conveniente para levar ao conhecimento da opinião pública. Esse papel primordial e insubstituível mantendo-se no essencial, tem sofrido contudo algumas actualizações fruto da sociedade global para que caminhámos e às novas tecnologias agora ao dispor do mais vulgar cidadão, quando dantes viviam na idade das trevas e a única possibilidade de acederem a qualquer facto ou acontecimento era através de canais restrictos que lhe eram oferecidos como exclusivo. Sem qualquer possibilidade de manifestar a sua indignação se fosse o caso, a não ser na mesa do café ou na tertúlia do bairro. Era, de forma permanente, um indignado limitado e silencioso.

4. As ferramentas que tem neste momento ao seu dispor fazem-no sentir motivado e a aventurar-se por caminhos que outrora lhe estavam vedados, tendo a possibilidade de, se nisso estiver interessado, de estar mais e melhor informado, de contrapor e até de comentar qualquer tema com maior ou menor aptidão e profundidade sem que isso deva merecer condenação. Pelo contrário, isso deve ser incentivado desde que não extravase os parâmetros saudáveis do comentário ou da crítica. Se vemos tantas pessoas com responsabilidades públicas a debitar aleivosias sobre tudo e sobre nada, não vemos que isso deva estar vedado ao cidadão normal, desde que cumpra as mais elementares regras de vivência: ser correcto, urbano e não contribuir para a mediocridade.

5. É evidente que não se pode esperar que o adepto ferrenho de um clube possa ser imparcial. Não é estranho que aconteça uma vez que observamos isso regularmente a nível dos vários painéis televisivos e, se quisermos, diariamente em diversos órgãos de informação. A própria formatação dos programas é intencional e convidativa à polémica uma vez que é justamente isso que os torna conhecidos e propicia audiências. Isso dá origem a um ciclo vicioso entre os adeptos mais susceptíveis que fazem valer a sua fúria e descarregam a sua frustração nas redes sociais com linguagem rasteira e obscena a coberto da liberdade do anonimato. É a face negra da indignação…

6. Tudo seria mais contido se porventura quem tem mais responsabilidades se abstivesse de fabricar polémicas constantes em que atirar a pedra e esconder a mão é o meio mais utilizado. Se isso acontece quase diariamente nos media, é óbvio que passa a ser replicado nas redes sociais (às vezes é o contrário com determinados comentários a serem sabiamente explorados). Esta simbiose necessita de ser urgentemente melhorada face aos exageros de toda a ordem que se estão a constatar em que para além do excesso de linguagem, os insultos pessoais estão na ordem do dia. A alegada indignação não justifica todo esse despautério a que urge por cobro.

7. Sabemos por experiência que os resquícios do silêncio de um passado amordaçado ainda se fazem sentir em vários tabuleiros transmitidos de geração em geração. Nada tem a ver com a idade mas com a formação algo chauvinista em que as suas quintas constituem exclusivos onde ninguém pode ultrapassar o portão sem que lhe soltem os cães. De forma genérica, um jurista não pode falar de economia, um economista de geografia ou um geólogo de futebol. São estas fronteiras limitativas de pseudo-especialização compulsiva que fazem deste País o que ele é na actualidade – um emaranhado de confusões e de fait-divers para entreter a populaça e desviá-la das coisas que realmente interessam. Com ou sem indignação...






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