Ponto Vermelho
Tema candente
31 de Janeiro de 2014
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1. Jorge Jesus continua a ser uma fonte de inspiração para muitos. Quando chegar ao fim a sua tarefa no Benfica estamos certos que isso constituirá uma perda de dimensões incalculáveis tal a recorrência com que é objecto previlegiado das atenções de toda a gente a começar pela imprensa. Fundamentalmente por ser treinador dos encarnados em que a exposição é tremenda e em que a sua actividade e o seu comportamento são escrutinados ao milímetro sem admitir a mínima margem de erro neste intrincado mundo novo da globalização.

2. Todos os adeptos benfiquistas têm na cabeça o perfil do treinador ideal para o Benfica. Mas será que ele existe e está disponível? Essa é a grande questão que justificaria uma análise mais aprofundada dado que as alternativas que se apresentam são de molde a deixarem muitos indecisos na hora de escolher. Este será um tema e um desafio sempre em aberto à altura da vastidão do universo encarnado que ganhará mais ou menos actualidade em função das performances que a equipa consiga atingir.

3. Por diversas vezes nos referimos ao tema reconhecendo as dificuldades comunicacionais de Jorge Jesus, muito embora tenhamos que registar uma evolução gradual positiva na sua postura e na forma de comunicar. O problema é que o cargo de treinador do Benfica é por demais exigente, pois dentro do perfil imaginado exige-se que seja um modelo de virtudes em todas as vertentes do cargo. Não se faz por menos. E, convenhamos, com alguma lógica dada a projecção universal do Benfica e o facto de se situar nas várias frentes de combate desportivo que obriga o treinador a estar sempre na crista da onda e é escrutinado no mais ínfimo pormenor.

4. A sua tarefa primordial é a de ganhar desportivamente. Se tal acontecer a componente comunicacional tende a ser desvalorizada e as eventuais incursões noutras áreas são mais toleradas. Afinal todos os adeptos querem vencer e por isso manifestam o seu desacordo sempre que os resultados não correspondem às expectativas criadas. Todavia, sempre que os resultados descambam, existe a tendência de valorizarmos os pequenos nadas e por isso prestamos maior atenção a qualquer deslize linguístico mesmo que não se queira dizer o que se disse…

5. Jorge Jesus tem determinado tipo de características que podem até surpreender os mais desatentos. Mas sem que isso diminua a capacidade crítica, exigir a um treinador da velha escola que se comporte tecnicamente como ele próprio e na forma comunicacional como um Quique Flores é capaz de ser tarefa demasiado exigente. Jesus como todos os seres humanos, tem vindo a sofrer influências de vária ordem e vai mudando mas não ao ponto de se descaracterizar perdendo a sua genuidade que funciona para o bem e para o mal.

6. É evidente que na forma como comunica a sua posição torna-se vulnerável até porque nos media já tem uma vasta colecção de inimigos de estimação que se aproveitam desse handicap para fazer valer as suas teses. Veja-se a propósito o tema das dez vezes que tem sido aproveitado até ao tutano atendendo a que os outros temas da actualidade não são de molde a entusiasmar. Mesmo que o ventrículo do Dragão tente dar seguimento à súbita indignação que ultimamente tem afectado a nação portista, ou que se venha a concluir que afinal o último jogo do Dragão acabou 3 minutos antes do de Penafiel…

7. Uma das armas de arremesso que tem sido atirada na direcção de Jesus prende-se com a valorização dos jogadores que nos anos mais recentes têm rendido importantes mais valias aos cofres encarnados. Como é hábito acontecer quando os campos estão extremados, ambas as partes dedicam-se a arranjar argumentos que ilustrem a sua tese. Sendo essa uma das suas missões para a qual é generosamente pago, é no entanto impossível escamotear o importante papel de Jesus nessas valorizações, sendo que tal não seria possível sem o contributo de uma estrutura abrangente e, factor absolutamente decisivo, o indispensável talento dos jogadores.

8. Enquanto vai engrossando o leque de futebolistas enquadrado nessas circunstâncias, é preciso observar a contrapartida dos falhanços. No mundo complexo do futebol, a fronteira que separa o sucesso do insucesso é uma linha demasiado ténue e sensível. Se nalguns casos a culpa deve ser assacada ao treinador e à estrutura por não terem conseguido potenciar o jogador, na maioria das situações o falhanço deve-se aos próprios atletas, seja porque não se esforçaram o suficiente, seja porque infelizmente para eles não possuem o talento mínimo para singrarem. Seja como for, o papel do treinador é decisivo a começar pela gestão dos egos que existem sempre em qualquer grupo, e isso faz toda a diferença. Jorge Jesus a par de alguns falhanços tem registado uma boa percentagem de sucesso nesse domínio. Pena é que por vezes o sucesso comunicacional não o acompanhe…




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