Ponto Vermelho
Empresta-me um apito...
8 de Fevereiro de 2014
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1. Ao longo da nossa vida como praticantes e de adeptos do desporto temos deparado com inúmeras situações que por serem plurais nos ajudaram a perceber de alguma forma o complexo mundo da arbitragem. Um grupo heterogéneo transformado em confraria onde o esforço de sintonia acaba por se revelar contrapruducente na medida em que a arrogância que sentimos nos relvados ou nos pavilhões não é mais do que uma reacção e um sentimento de auto-defesa para esconder inseguranças e fragilidades. Os árbitros estão e deixam-se estar demasiado expostos porque representam o bode expiatório que está mais à mão para desculpar os insucessos dos clubes, mas também e fundamentalmente, porque não têm sabido esconder a via da impermeabilidade e da discrição optando pelo protagonismo que deve ser exclusivo dos verdadeiros artistas – os jogadores.

2. Há algum tempo na sequência de uma fase de menor acerto dos apitadores, veio a terreiro o presidente do respectivo Sector justificar que tal se devia ao escasso campo de recrutamento e, na impossibilidade de podermos importar árbitros, teríamos que viver com aqueles que tínhamos. Foi também um momento em que o conservadorismo deu lugar por breves momentos ao pragmatismo, admitindo um intercâmbio e a possibilidade como experiência, dos jogos mais quentes poderem ser apitados por árbitros fora dos quadros portugueses do sector. Tudo para amenizar as indignações sistemáticas que vinham alastrando e ameaçavam tornar-se um caso sério. É que nessas alturas, os responsáveis da arbitragem incapazes de justificar publicamente as razões para tantos despautérios, optam pela fuga para a frente para tentar calar as vozes mais contestatárias esperando que passe a onda. Mas, entretanto, o mal está feito…

3. Como foi então possível chegar a este ponto? Ninguém ignora que desde sempre houve problemas na arbitragem porque os dirigentes chicos-espertos rapidamente se aperceberam que era um sector onde poderiam recolher vantagens infinitas. Isto por um lado porque por outro, a impreparação e incompetência de muitos árbitros, a ânsia de protagonismo de alguns e a permeabilidade de quase todos no tocante a pressões exteriores acabaram por contribuir para o descrédito que rapidamente atingiu a classe e o próprio futebol. O “Apito Dourado” sendo significativo para explicar as razões porque aconteciam algumas coisas, limitou-se apenas a levantar a ponta de um véu demasiado comprido que entretanto começou a ser substituído ainda que sem o sucesso de outrora…

4. Perante isso a classe optou por refugiar-se no esconderijo corporativo na convicção de que o tempo, tal como noutras situações, contribuiria para apagar da memória colectiva toda a sujidade. Infelizmente tal não se verificou e exerceu um efeito antagónico pois para os adeptos e para a opinião pública, sempre que acontecem falhas gritantes as mesmas são tidas como dolosas. É em muitos casos um perfeito exagero mas que não pode ser escamoteado, pois a impossibilidade razoável de o provar não significa que não aconteçam. Alguns exemplos ilustrativos de erros cirúrgicos seja por omissão seja por falta de concentração momentânea que adulteraram resultados em determinados jogos e ajudaram a decidir campeonatos, são a prova provada de que nem tudo são acasos e coincidências… É que, mesmo admitindo essa hipótese virtual, como explicar de forma assertiva que os males afectem sempre os mesmos?

5. Pelo seu impacto, os árbitros do futebol são os mais mediatizados. Mas o mesmo vírus já se propagou às modalidades ditas amadoras, com destaque para o Andebol e Hóquei em Patins em cujos campeonatos participa o FC Porto. Ano após ano, aparte erros e deficiências das equipas do Benfica, temos assistido nos principais jogos a um autêntico festival arbitral com um objectivo claro – afastar os encarnados da discussão dos títulos. No Hóquei atente-se por exemplo, no que aconteceu no último fim de semana em Valongo em que para além do mérito da equipa valonguense, se assistiu a um protagonismo escusado por parte da dupla Joaquim Pinto-Luís Peixoto que adulterou claramente o resultado final. Se se reconhece sem dificuldade que todos erram, como explicar então que todas as decisões mais influentes (inclusive agressões) tenham redundado em prejuízo da equipa do Benfica?

6. Protagonistas, logo sabedores e conscientes do alcance da situação, esperar-se-ia que a confraria do apito se unisse em torno de um objectivo comum tomando medidas na defesa da classe que é pressionada a cada passo por todos aqueles que a isso há muito estão habituados. Uns que controlando o fazem pela calada da noite e outros, normalmente os prejudicados, que clamam lutando quase sempre contra moinhos de vento. Todavia, para além das tiradas tonitruantes mas inóquas por definição dos dirigentes e responsáveis da classe, no mais remetem-se ao silêncio compulsivo aguardando nova investida. É certo que têm limitações que lhes são impostas mas nada os impede de irem mais além até porque não detém o monopólio dos erros e das asneiras. Enquanto isso não acontecer não sairão do buraco negro em que se enfiaram…








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