Ponto Vermelho
Desagregação?
25 de Fevereiro de 2014
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1. Embora fossem visíveis os sinais de desorientação para os lados do Dragão e se multiplicassem os indícios de desagregação da tão elogiada estrutura de sonho, não há dúvida que a derrota caseira com o Estoril de Marco Silva veio pôr a nu fragilidades encobertas e precipitar os acontecimentos que mal se poderiam fazer esperar. Da forma como as coisas estavam era uma inevitabilidade, dependendo apenas da oportunidade para sobressairem. Os sinais estavam lá e vinham-se acumulando de forma clara na estrutura e como tudo na vida, é possível esconder algo durante muito tempo mas impossível fazê-lo durante todo o tempo.

2. Um sistema que assenta no poder de um monarca absoluto numa definição rebuscada do L’état c’est moi de Luis XIV, é um sistema fatalmente condenado a desaparecer, dependendo unicamente do prolongamento do ciclo temporal do seu pivot. De facto, tal como a História revela na multiplicidade dos seus exemplos, o facto de tudo ir gradualmente secando à sua volta, dá origem a um aridez em que os verdadeiros seres pensantes se afastam ficando apenas os yes men que, quais bobos da corte, se prestam a todos os sacrifícios para agradar e cumprir a vontade suprema do soberano. Que, por motivos óbvios, nunca teve o mínimo interesse em estabelecer e preparar um sucessor para as tarefas do futuro.

3. Ao longo dos últimos anos o FC Porto foi publicitado com justiça como sendo o clube a nível europeu e até mesmo mundial que gerava as maiores receitas com as transacções de venda de jogadores. Foram largas centenas de milhões de euros supostos de terem entrado nos cofres do Dragão depois de descontadas as inúmeras comissões e alcavalas, outro dos items em que os portistas são por norma muito generosos, e que faria pressupor uma saúde financeira invejável do ponto de vista português com a redução sistemática de um passivo preocupante, mormente a partir do momento em que a generosa banca atolada em crédito malparado, por pressão da troika do nosso descontentamento, introduziu severíssimas restricções na concessão de crédito aos clubes e às empresas.

4. Como todos sabemos, o director financeiro nos grandes clubes é uma figura com um peso acentuado até pela forma como se inter-relaciona com o mundo financeiro, com os credores e com o fiscal CMVM. Nele assenta uma base importante de confiança do mercado na empresa e no clube. Não deixa de ser portanto sintomático que com a demissão de Angelino Ferreira aumente o número dos directores financeiros que saem da SAD do FC Porto por alegadas divergências e da estratégia a seguir. Provavelmente nunca se virão a saber as verdadeiras razões que estão por detrás dessas demissões, mas os rumores que apontam para guerras intestinas pelo poder com o filho de Pinto da Costa no epicentro dos acontecimentos terá, porventura, algo a ver com o assunto.

5. Circulando igualmente alguns suspiros que dão conta de que Pinto da Costa já não controla todos os acontecimentos (internos e externos), ainda assim o seu poder influenciador faz-se sentir ainda que sem a eficácia de outrora. O sucedido no exterior do Dragão após a derrota com o Estoril fica para os anais das vergonhas porque tem passado a PSP do Porto em que os seus dirigentes são desautorizados em público pelo líder azul e branco que faz questão de lhes explicar como deverão manter a ordem pública, reeditando cenas no Dragão Caixa por ocasião da final de Basquetebol com o Benfica. Além de que, os seguranças parecem dispôr de um poder discriccionário que os faz dar chegas para lá a agentes policiais sem que estes reajam com voz de prisão como se impunha.

6. Esta sequência de acontecimentos com sintomas contraditórios revela contudo indícios de que a estrutura está a caminhar para uma convulsão interna que mais tarde ou mais cedo irá produzir efeitos. A organização mais visível do futebol há já algum tempo que dá sinais evidentes de erosão sendo que o controle férreo que era imposto está a registar brechas e contradições que inevitavelmente chegam ao balneário e que é bem visível no comportamento e declarações de alguns atletas que queriam sair e estão contrariados. Isso tem forçosamente que se reflectir no padrão de jogo e nas prestações da equipa. Quando faltam apenas 10 jornadas para concluir o campeonato, é certo que, apesar da distância pontual ser significativa para o Benfica tudo está ainda em aberto. Mas parece por demais evidente que só uma sequência muito negativa dos encarnados poderá criar esperanças concretas no xadrez azul e branco. E é nossa forte convicção que, desta vez, o Benfica está avisado e prevenido…








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