Ponto Vermelho
A partida de um monstro
26 de Fevereiro de 2014
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A família benfiquista, Moçambique, Portugal e o Mundo do futebol em geral acabam de ver partir mais um dos grandes jogadores que passaram pelos relvados mundiais. É um ano que começa terrivelmente aziago pois no espaço de um mês desapareceram do mundo dos vivos Eusébio da Silva Ferreira e Mário Esteves Coluna, dois enormíssimos jogadores que fizeram as delícias dos amantes do futebol e de quem disfrutou do inesgotável prazer de os ver jogar ao vivo, muito embora com características tão diferentes entre si, que íam da forma como evoluiam no relvado passando por uma personalidade totalmente distinta.

Eusébio era um jogador rápido, versátil, explosivo e um emérito marcador de golos; Coluna, ao invés, era mais lento, mais cerebral e carismático mas nem por isso menos influente. Atrever-nos íamos até a afirmar que se alguém contribuiu para a tão famosa mística benfiquista que nunca ninguém soube ao certo definir com exactidão, Mário Coluna terá sido seguramente um deles, tal a raça que empregava nas suas prestações e tal a influência que exercia nos colegas e nos adversários. Ninguém ficava indiferente à sua personalidade vincada e à sua voz de comando que se fazia sentir a cada momento.

Como sempre acontece nestes momentos dolorosos muitas são as histórias evocadoras da sua personalidade e do seu comportamento nos relvados e fora deles. Pormenores a que o comum dos adeptos e a opinião pública só têm acesso quando os que de mais de perto com ele privaram o referem. Logo após o infausto acontecimento a comunicação social tem vindo a recolher os testemunhos dos seus colegas de então sobre os principais traços da personalidade de Mário Coluna, sendo interessante de observar que todos eles apontam numa mesma direcção: a sua liderança era indiscutida com os mais novos a manifestarem algum temor reverencial pelo grande capitão.

Tal como Eusébio e alguns outros (muito poucos) que atingiram o estrelato, Coluna teve o handicap de ter jogado numa época em que o futebol, apesar de arrastar multidões e paixões exacerbadas, não tinha nem de longe nem de perto a expressão que tem nos tempos actuais onde o marketing e o crescimento e expansão das novas tecnologias transformaram o futebol e todos os aspectos a ele associados, num cenário global gigantesco que rapidamente chega a qualquer parte do globo no espaço de escassos minutos, impelidos pelas gigantescas verbas movimentadas pelas diversas clientelas que descobriram no desporto-rei o novo el dorado.

Coluna, para além dos inúmeros títulos nacionais teve decisiva influência nas duas Taças de Campeões vencidas pelo Benfica ante os gigantes Barcelona e Real Madrid. Na sua terceira final consecutiva, perante o Milan em Wembley, o Benfica saiu derrotado depois de ter inaugurado o marcador pelo inevitável Eusébio, mas para que isso tivesse acontecido, para além do golo da vitória milanesa ter sido obtido em posição de fora-de-jogo, muito contribuiu a lesão prematura do capitão encarnado que passou a jogar inferiorizado e a ter influência reduzida, dado que, para além do mais, por essa altura ainda não eram permitidas substituições.

Quem então assistiu ao jogo ou teve a oportunidade de o observar pela televisão, não deixou de reparar num pormenor importante e manifestamente decisivo: é que Coluna foi posto fora de combate de forma intencional ainda na primeira parte pelo então jogador milanês Giuseppe Trapattoni que mais tarde, 42 anos depois, haveria de sagrar-se, curiosamente, campeão pelo Benfica. Com efeito, sabedores da influência que o capitão encarnada tinha na planificação e no desenvolvimento do jogo encarnado, os italianos trataram de o inutilizar com uma entrada duríssima à margem das leis. Embora nunca se venha a saber, se Coluna tem permanecido com as suas potencialidades intactas quem poderia garantir que o Benfica não conseguiria enterrar logo no ano seguinte a maldição de Béla Guttman?

Foi este histórico campeão que acabou de partir. A sua saúde era há já muito tempo débil e isso já foi visível, por exemplo, na Gala do 105.º Aniversário do Sport Lisboa e Benfica em 2009. Que se foi agravando com o passar do tempo, a tal ponto que os médicos desaconselharam as viagens intercontinentais sendo assim impedido de estar presente, há um mês atrás, nas exéquias fúnebres do seu grande afilhado Eusébio seu conterrâneo por quem nutria um carinho verdadeiramente paternal. Mas a grande verdade é que sabendo-se como o destino é inexorável, quando chega a hora nunca estamos preparados. A História dará conta do seu enorme contributo para a expansão e prestígio internacional do Benfica, da Selecção Portuguesa (em particular no Mundial de Inglaterra) e do futebol no Mundo.
Descansa em paz grande capitão!






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