Ponto Vermelho
Um aniversário triste
28 de Fevereiro de 2014
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1. Faz hoje precisamente 110 anos que o Benfica nasceu. Pobre e honrado, nem provavelmente os seus fundadores jamais sonhariam que a sua arrojada decisão e o seu tremendo esforço iriam dar lugar a um Clube de tão grande dimensão e tão glorioso que veria a sua fama galgar as fronteiras deste pequeno País vivendo durante largo período no obscurantismo político e votado ao ostracismo pelos seus pares europeus e mundiais. Mas mesmo durante essa época deprimente em que a ditadura perdurava e as liberdades estavam restringidas, o Benfica através dos seus sucessivos dirigentes nunca se submeteu e sempre foi um clube democrático. Daí que sintamos um tremendo gozo com as vozes de burro que para o denegrir o catalogam de Clube do Regime

2. Seria pois lógico que os benfiquistas neste aniversário redondo o comemorassem efusivamente por todo o crescimento sustentado que o Clube vem registando e por tudo aquilo que a nossa consciência reconhece na sua grandeza, afinal por todo o orgulho que sentimos em sermos benfiquistas. Como tudo na vida, nem sempre todos os momentos têm sido de júbilo e de satisfação. Tem havido ocasiões que nos têm deprimido e outras em que só a tenacidade, o esforço e a capacidade de verdadeiros benfiquistas impediram que o Clube resvalasse para patamares esconsos que o condenaria definitivamente ao abismo provocado pelo aventureirismo de alguns que não chegaram ao Clube para respeitar o legado dos seus fundadores mas apenas para dele se servirem.

3. São os altos e baixos que qualquer clube ou empresa regista ao longo da sua existência, cuja história deve estar sempre presente no espírito de todos ao longo das várias gerações para que não voltem a acontecer situações tão gravosas. Relembramos isto a propósito, pois grande e extenso tem sido o caminho percorrido e que justificaria o reconhecimento do ponto a que chegámos do presente, apesar de todas as diferenças que emergem num universo tão vasto e heterogéneo como o benfiquista, e a despeito de todas as dificuldades sociais actuais que atingem a esmagadora maioria da população portuguesa e dos benfiquistas em particular que os direcciona prioritariamente para tarefas de sobrevivência.

4. Nada afinal de transcendente para os benfiquistas que como adeptos de um clube tão popular desde os primórdios, estão habituados a sofrerem na pele desde sempre as imposições sucessivas do poder político que sempre se esqueceu de cumprir as funções que lhe incumbem no desenvolvimento e progresso do desporto para deixar essas tarefas aos clubes que acabam por desempenhar uma função dupla com espírito de sacrifício e a terem que inventar soluções para sobreviverem e que poderiam ser amenizadas caso o Estado não demonstrasse uma total insensibilidade nessa questão. Manter por exemplo o IVA a 23% sobre a bilhética face à crise com a dimensão da actual, significa um progressivo afastamento dos estádios e dos pavilhões e com isso o Estado, paradoxalmente, acaba por arrecadar menos receita.

5. Tudo isso, no entanto, não impediria, como em todos os pretéritos anos, que o aniversário fosse comemorado a preceito. Contudo este ano tem sido devastador para todos os benfiquistas pois no curto espaço temporal que antecedeu o aniversário, vimos desaparecer do mundo dos vivos nada mais nada menos do que dois dos maiores atletas do clube de sempre cujas figuras simbolizavam a alma, o querer e a mística benfiquistas. A partir do momento em que isso aconteceu e apesar da vida continuar indiferente o seu caminho, para além da disposição que passou a não haver, justificava-se uma atitude discreta e recatada no tocante às comemorações como sinal de luto e de respeito pelos vultos desaparecidos e que cuja memória permanecerá sempre bem viva nos nossos espíritos.

6. A despeito de vivermos momentos particularmente tristes, é justo realçar a nobreza com que o Clube através da sua Direcção e particularmente do seu presidente, tem tratado todas as coordenadas envolventes conferindo-lhe a dimensão ajustada às circunstâncias e à condição de figuras maiores que Eusébio e Coluna representam para o Sport Lisboa e Benfica e para todo o universo do futebol aquém e além fronteiras. Foi portanto um aniversário compreensívelmente discreto e ajustado ao momento triste que o clube vive mas nem por isso menos importante e significativo no seu percurso centenário. A inauguração da estátua em honra a Béla Guttman foi um momento de grande significado porque prova também que o Clube sabe reconhecer e honrar todos os que através dos tempos muito contribuiram para a sua grandeza. Que todos saibamos ser dignos do legado que nos deixaram!








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