Ponto Vermelho
Metamorfose
4 de Março de 2014
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Um dos grandes casos da actualidade para além do sai não sai de Paulo Fonseca, tem sido a forma como tem vindo a ser abordada a súbita metamorfose do treinador Jorge Jesus que coincide com a diferente postura em campo da equipa do Benfica. Uma situação que tem dado origem a toda uma série de análises em que se procuram e avançam teses explicativas para o sucedido, sendo algumas delas bem interessantes. Esta permanente atracção do homem para encontrar explicações para qualquer facto rotulado de surpreendente à primeira vista é uma intenção de sempre, se bem que ampliada no interesse quando se trata de matéria que pode fazer as delícias de um espaço comunicativo sempre ávido de temas fracturantes.

A transformação acontece com toda a naturalidade. Se a crise provocada continua a estender-se cada vez mais aos extractos menos protegidos da sociedade portuguesa apesar de nos quererem fazer crer o contrário através das inevitáveis estatísticas para papalvo acreditar, porque razão Jorge Jesus, em face dos resultados, não deveria registar evolução depois de insistentemente crucificado pelos inúmeros doutorados que gravitam nos media e que se estendeu de forma gradual à parte mais manejável do amplo universo benfiquista que insiste na tendência de acreditar em tudo o que lhe contam mesmo que sejam análises e notícias com um fim específico e direccionado?

Diríamos que só agora se oberva isso com maior nitidez atendendo a que contrariamente ao que acontece no FC Porto com a sua estrutura de sonho ou ex?, não terá sido aconselhado por assessores-controladores para dizer a cada momento o que outros pensam e que é tido como verdade oficial e por isso sem possibilidades de ser discutida ou contrariada. Jorge Jesus sempre reflectiu uma cultura de bairro muito própria que apenas os genuínos bairristas conseguem compreender e veicular, causando frequentes manifestações de escárnio a todos os cosmopolitas que interpretam a intelectualidade como um estado avançado de auto-afirmação na vida balofa e irrealista dos dias de hoje.

Após um acumular de desilusões tendo em conta as altas expectativas criadas desde que chegou e foi campeão, depois do prolongar da incerteza sobre o seu destino, após o ainda não esquecido triste epílogo da última temporada, era crível que algo tivesse que mudar. Porque mesmo aquelas personalidades definidas como fortes e teimosas que poderão ter toda a razão do Mundo nos conceitos e na definição das suas verdades evoluem como qualquer cidadão que se preze, se porventura vierem a concluir que a razão real é determinada pelas conjunturas que poderão deixar muito a desejar mas são absolutamente determinantes. Para o bem e para o mal.

Nas pretéritas duas épocas em particular na última, quantos elogios recebeu o futebol do Benfica e o seu treinador pelo excelente futebol atacante de nota artística que encantou toda a Europa? Foi essa a imagem que ficou gravada na retina de todos os que gostam e acompanham o futebol como desporto-espectáculo por se tratar de um desempenho com o seu quê de romântico e desfasado portanto do calculismo, da frieza e do matreirismo que costuma caracterizar o futebol na sua versão actual de que foi exemplo vivo o Chelsea enquanto vencedor da Champions e, já agora, da última Liga Europa precisamente frente ao Benfica.

Talvez tenha sido a procura da situação ideal para o casamento perfeito misturando a vertente espectáculo com a eficácia de resultados que levou à situação inesperada que atingiu os adeptos benfiquistas no espaço de 12 dias. Que, é bom lembrar, quase todos aplaudimos. Mas como todos os romantismos, esse tipo de futebol encerra sempre algo de ingénuo e terá sido porventura isso que levou o Benfica a falhar na hora das últimas decisões, com excepção da final da Taça de Portugal onde esse futebol esteve ausente pois já se faziam sentir os efeitos traumáticos das desilusões acumuladas com tudo o que tinha acabado de suceder de rajada.

Como sempre acontece neste tipo de situações são os que mais exageram no elogio que passam ao extremo oposto com igual vibração, acabando por exercer um efeito nefasto na equipa pois em qualquer dos casos, ainda que antagónicos, é prejudicial. Depois existe uma característica muito latina e portuguesa que faz com que os apoios e os elogios só se manifestem quando tudo está a correr bem. Já não vamos citar os exemplos anglo-saxónicos para nos determos apenas nos recentes desafios com o medíocre PAOK em que os adeptos gregos com a eliminatória irremediavelmente perdida não deixaram de incentivar a sua equipa. São todas essas complexidades que terão levado Jorge Jesus a optar por uma abordagem mais pragmática e mais ajustada ao pulsar da realidade portuguesa. Curiosamente, agora é acusado de se ter tornado conservador nas tácticas enquanto estranham a postura calma e tranquila nas suas aparições públicas. Ainda que não se saibam os resultados finais. Dá para perceber?






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