Ponto Vermelho
Sem margem de manobra
5 de Março de 2014
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1. Embora seja uma situação corrente todas as épocas, a actual está a exceder as expectativas negativas nesse particular, pois com o abandono de Paulo Fonseca do comando do FC Porto chegou-se ao 7.º treinador que rescinde. Isto apenas no que toca à I Liga. Invariavelmente pelos mesmos motivos: resultados muito aquém dos esperados pelas administrações dos clubes. O caso dos portistas não fugiu à regra com o assunto a atingir impacto significativo; pela dimensão do clube e sobretudo por não ser habitual acontecer por aquelas bandas onde a estrutura de sonho nunca tem dúvidas e raramente se engana. Mas parece que desta vez por um conjunto de razões alargadas equivocou-se, até porque os sinais evidentes dos últimos anos indiciam claramente que as coisas já não são exactamente o que eram.

2. A expressão popularizada pelo velho capitão Mário Wilson aquando de uma das suas passagens pelo Benfica de que qualquer treinador se arriscava a ser campeão foi adoptada com êxito no Dragão e ainda que com ligeiros acidentes de percurso, sempre foi norma a manutenção dos treinadores até final do seu contrato ainda que sem aquecerem muito o lugar devido à política seguida, com a excepção de Jesualdo Ferreira por situações de natureza conjuntural. Porque quando se está estabilizado a ganhar (o como é secundário…) o crédito aumenta vertiginosamente, pelo que escolher o ou o Jaquim parecia ser apenas um mero acto administrativo pois a estrutura através das suas várias ramificações tudo controlava, até os danos eventualmente provocados pelos responsáveis técnicos.

3. Inúmeros paineleiros deram ênfase ao longo dos tempos a esse particular aspecto sublinhando o dedo de Pinto da Costa no absolutismo das escolhas, ganhando assim o decano presidente portista uma aura próxima do infalível. Talvez, até, o seu tiro mais certeiro nos últimos tempos tenha sido André Villas-Boas de quem não se conhecia nenhum trabalho relevante e que por bambúrrio do destino conseguiu numa época um ror de êxitos que provavelmente nunca mais irá atingir na sua carreira. Pelo menos a avaliar pelas suas posteriores prestações desde que abandonou abruptamente a sua cadeira de sonho pondo definitivamente em xeque a estrutura infalível que tudo controla e tudo prevê.

4. Esse acontecimento a que não foi atribuída especial importância apesar de indefectíveis portistas considerarem esse súbito abandono como uma traição à nobre causa pintista, viria mais tarde a demonstrar que tinha sido o primeiro grande rombo na tão propagandeada infalibilidade da estrutura que reagiu atabalhoadamente, acabando por optar pelo seu adjunto igualmente sem currículo que apresentava como experiência mais relevante uma fugaz passagem pelo Santa Clara. Porque, continuava a existir a fortíssima convicção de que o importante era a estrutura e não propriamente o treinador qualquer que ele fosse.

5. Acabou por correr bem mais essa experiência, ainda que os sinais dela emitidos fossem de molde a causar alguma apreensão. Vítor Pereira acabou por atingir os objectivos de vencer o campeonato em dois anos consecutivos com a particularidade de os ganhar na recta final com ultrapassagem ao Benfica, uma situação que deu mais gozo e massajou o enorme ego do presidente portista sempre que consegue ficar à frente do Benfica. Mas para qualquer observador, ficou por demais claro que tinha havido mais demérito dos encarnados e mérito das arbitragens no primeiro, e alguma falta de sorte e acentuado desmerecimento do Benfica no segundo. Eram indicações sérias de alerta.

6. Consciente disso e consumado mais um ciclo no que ao treinador diz respeito, Pinto da Costa tentou o golpe do baú ao tentar contratar Jorge Jesus aproveitando as hesitações que na altura grassavam na esfera benfiquista incluindo o próprio técnico. A consumar-se teria sido um golpe de mestre pois tal teria constituído nesse momento algo conturbado um efeito de proporções inimagináveis no seu rival encarnado sobretudo no capítulo psicológico, muito embora a algazarra que imperava no universo benfiquista fosse de molde a deixar em aberto interpretações minimizadoras de impacto.

7. Sem grandes alternativas apesar da listagem de 50 treinadores em fila de espera para treinar o FC Porto, o presidente portista quis de novo surpreender e virou-se para o jovem promissor Paulo Fonseca que em termos comparativos acabava por ter mais experiência do que os seus antecessores. Viu-se o que aconteceu e observou-se como desta vez a estrutura bem cedo retirou a rede ao seu treinador deixando-o expôsto aos ataques que se iniciaram a partir do próprio interior portista para mascarar os evidentes erros de Pinto da Costa. O que revela desorientação e tentativa de evitar mais exposição do presidente que sai deveras chamuscado deste episódio, dado que foi ele que escolheu o treinador e definiu o plantel. Paulo Fonseca cometeu sem dúvida vários erros mas quem de azul e branco os tentou minimizar e quem em última instância o defendeu? Segue-se agora um interlúdio sendo apenas necessário esperar pelos próximos episódios. Já a seguir.






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