Ponto Vermelho
Concerto da fruta
7 de Março de 2014
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Era convicção generalizada que uma das variantes (talvez a mais badalada) do celebérrimo processo “Apito Dourado” conhecido na gíria como o “caso da fruta” estava definitivamente morto e enterrado, considerando que em relação às personagens envolvidas que engendraram todo esse esquema tenebroso e providenciavam o fornecimento de fruta tão variada, tudo foi feito para que, com maior ou menor dificuldade, saíssem impunes de mais uma golpada corriqueira levada a cabo nos meandros do futebol português. E não só. Depois de tantos indícios e de tanta conversa de corredor, ficou-se finalmente a conhecer os contornos de todo o esquema através das interessantes escutas levadas a cabo na primeira pessoa.

Constituído apenas como um ligeiro tentáculo do gigantesco polvo que servia para ajudar à descontracção das equipas de arbitragem antes dos jogos sobretudo os que eram considerados como estratégicos, fruta seleccionada foi sendo providenciada ao longo dos tempos e atingiu tais proporções que passou a ser considerado como um facto banal pelas pessoas que se movimentavam no meio e que recolhiam benefícios de vária ordem. O ser humano é permeável e raramente consegue resistir a tentações dessa natureza. Quantas vitórias e campeonatos não foram assim manipulados devido a erros de arbitragem? Quantos clubes amigos não sobreviveram à descida de divisão através de erros cirúrgicos a seu favor? Quantos processos não o chegaram a ser?

Como todos sabemos e de alguma forma esperávamos face ao sistema de justiça que impera, a montanha nem sequer chegou a parir um ratinho que fosse, como anteviu com o distanciamento que o caracteriza o juíz jubilado Herculano Lima actual Presidente do Conselho de Disciplina e à data Presidente do Conselho de Justiça. O esquema foi extraordinariamente simples: não considerar as escutas que constituiam o principal meio de prova para a incriminação por um lado, e descridibilizar testemunhas de acusação por outro, entre as quais a que interpretou a figura de afilhada de Pinto da Costa numa visita ao Vaticano. Quem as ouviu e foram mesmo muitos milhares, percebeu porque razão a defesa tanto se encarniçou na luta para que as escutas não fossem consideradas em tribunal.

Surge agora a notícia de que o Conselho de Justiça da FPF decidiu proceder à reabertura do processo tendo por base uma decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa. Nada de novo porquanto, tal como aconteceu anteriormente, subsiste a tese de que as escutas telefónicas são ilegais como meio de prova em processos desportivos. O assunto volta assim ao Conselho de Disciplina da FPF para reanálise e, sabendo-se que o principal meio de prova são as escutas que não podem ser consideradas, compete então a este Órgão encontrar outros meios que sirvam eventualmente de prova e possam ser considerados.

Contudo, este processo enviezado apresenta uma particularidade importante e decisiva – é que já prescreveu! Assim sendo, para além de perdas de tempo e gastos inúteis, servirá apenas (o que já não é pouco…) para passar uma esponja sobre o cadastro de Pinto da Costa (que nesta altura já deve estar imaculadamente limpo) e da antiga equipa de arbitragem chefiada por Jacinto Paixão. Com uma importantíssima diferença: enquanto Pinto da Costa continuou a ser Presidente do FC Porto, os três árbitros desapareceram do mundo da arbitragem… Mais uma vez tivémos uma justiça exemplar que aliás faz juz ao que dela sempre conhecemos.

Continuam a divergir as opiniões sobre o balanço que deve ser feito do “Apito Dourado”. Há quem defenda que foi uma pedrada no charco e que nada ficou com dantes, e quem argumente que apenas serviu para fazer alguns arranhões num esquema multifacetado que estava habituado a actuar com a mais completa impunidade e que a partir daí ficou avisado e em estado de alerta o que obrigou a várias alterações no seu modus operandi e ficou mais restringido. Inclinamo-nos para esta última tese dado que apesar das provas esmagadoras produzidas pelas escutas que puseram a nu em tempo real todas as tramóias orquestradas, os intérpretes mantêm-se quase todos no activo e, assim sendo, não é crível que de repente passem a ser pessoas diferentes e cumpridoras das boas práticas, da ética e dos regulamentos.

Os sucessivos episódios que de então para cá têm vindo a acontecer tendo os mesmos protagonistas no seu epicentro, revelam que a despeito de algo ter mudado ainda estamos muito longe da verdade desportiva e da completa eliminação dos golpes palacianos que continuam a acontecer com regularidade mantendo ainda todos os tiques do antigamente. Não haverá evolução sensível enquanto não houver rejuvenescimento de mentalidades e de velhos hábitos demasiado enraízados. E isso está a acontecer muito devagar para as prementes necessidades do desporto português e do futebol em particular que assim não tem hipóteses de evoluir mais rapidamente. No entanto, é proíbido baixar os braços!






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