Ponto Vermelho
O espelho do Futebol português
8 de Março de 2014
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1. O Futebol português está a atravessar novas convulsões e vive outra vez em estado de sítio. A pretensa acalmia que por momentos pareceu ser um ponto de partida para uma reflexão profunda não era, afinal, mais do que uma paz podre em transição para a confusão que estava a fermentar e poderia rebentar a qualquer momento. Aquilo que sempre foi uma imposição dos poderes instalados liderado pela velha Olivedesportos do empresário Joaquim Oliveira e com o FC Porto como seu principal usufrutuário, face à perda de poder – leia-se muito dinheiro –, esgotou a paciência e socorrendo-se dos clubes das migalhas há muito engessados, partiu para a frente de combate tentando destruir todos os que têm tido a ousadia de lhe fazer frente e reduzir influência.

2. É assim o poder qualquer ele seja. E este é poderoso porque para além do mais está bem consolidado. De tal maneira que não são simples arrufos dos clubes que lhe devem obediência porque dele dependentes, que provoca erosão que o danifique ao ponto de o fazer abanar. Em boa verdade nunca foi essa a sua real preocupação mas sim outro inimigo muito mais poderoso – o Benfica –, o único que tinha condições para o afrontar percorrida que foi a sua longa travessia no deserto. E como estamos a assistir em sucessivas incursões, bastou um simples estalar de dedos do todo-poderoso para que os clubes das migalhas que criaram a falsa ilusão de poderem vir a beneficiar com a centralização dos direitos televisivos, estivessem agora tão empenhados em afastar a pessoa que promoveram. Para quê centralizar direitos se eles, à excepção do Benfica, já estão centralizados?...

3. Por motivos que estão á vista de toda a gente, a ideia peregrina de centralizar direitos na Liga nunca pode colher as simpatias de Joaquim Oliveira. Porque lhe prejudica o negócio na vertente financeira e, ao fazê-lo, arrasta consigo a diminuição da influência e consequentemente do imenso poder de que disfruta neste momento. Daí que seja compreensível a sua reacção em que qual general na reserva activa, se refugia no silêncio dos gabinetes dando ordens para que a infantaria avance protegendo-se assim do desgaste que lhe causariam porventura encontros inesperados. Sem que isso, todavia, lhe reduza a capacidade de comando e de controle das operações no terreno.

4. Está assim justificada a encarniçada luta para a destituição imediata do Presidente da Liga que está a funcionar como impecilho aos seus desígnios. E como o que ontem era verdade mas hoje é mentira, os que entusiasticamente o catapultaram para Presidente da Liga, são os mesmos que de há tempos a esta parte, a rogo, descobriram que ele não é suficientemente competente para cumprir o programa e tem que sair imediatamente não importando que os dois principais pontos – centralização dos direitos e alargamento – estejam parcialmente cumpridos, sendo que o primeiro, dada a sua enorme complexidade, corre os seus trâmites a passo de caracol. E também, que as eleições para a presidência da Liga sejam já na primeira quinzena de Junho.

5. O objectivo é claro: colocar desde já uma das marionetas que adoram fazer-se ouvir ostentando uma falsa sensação de poder que nunca irão ter, pois para usar uma das expressões usadas pelo líder do Marítimo que inflamaram a última reunião de presidentes e entusiasmaram a comunicação social, não passam de meros paus-mandados, sendo que alguns dos ditos ostentam no seu currículo processos de corrupção, inclusive condenações. Afinal nem todos têm o privilégio de passar pelos intervalos da justiça. Se eleitos, se calhar a sua primeira medida seria, paradoxalmente, retirar os processos de centralização dos direitos encetados por Mário Figueiredo…

6. Nesse contexto não admira a turbulência e a linguagem de sarjeta utilizada na última reunião de presidentes. O que interessava apenas era destituir Figueiredo e não propriamente discutir o que verdadeiramente interessa. Todos os problemas prioritários dos clubes (e que são muitos) foram remetidos mais uma vez para as calendas o que é uma recorrência. Como última nota não deixaríamos de sublinhar a nostálgica expressão de um dos paus-mandados a reclamar um “25 de Abril no Futebol” e que ilustra bem a confusão que reina nalgumas mentes. Como é possível que no ano em que se assinala o 40º aniversário da “Revolução dos Cravos” haja alguém a reclamá-lo para o futebol quando em simultâneo e em público defende o 24 de Abril para o mesmo futebol? O que tem andado a fazer estes anos todos?








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