Ponto Vermelho
No bom caminho
10 de Março de 2014
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O universo benfiquista, de tão heterogéneo, exprime a cada momento diferentes maneiras de viver o clube que vão desde o optimismo incontrolável ao pessimismo exagerado. Pelo meio, existe ponderação, aplausos, críticas, reconhecimentos e constatações que completam o pulsar da nação benfiquista. Sempre assim foi, cumprindo-se afinal a tradição democrática que sempre caracterizou o mundo encarnado desde os primórdios. Ao Benfica a democracia chegou muito antes do País a conhecer. Por mais que alguns arautos trajando com roupagem democrática queiram, para denegrir esses princípios e essa prática, empurrar o Benfica para outros caminhos que eles próprios dominam como ninguém, a realidade é que a grande nau encarnada, com alguns intermezzos próprios de acidentes da História, sempre se manteve fiel ao princípio instituído pelos seus fundadores. Assim outros pudessem dizer o mesmo.

A rapidez com que o Mundo se tem desenvolvido trouxe com ela novos conhecimentos, diferentes exigências mas também de algum modo um afastamento do passado glorioso não vivido pelas novas gerações de benfiquistas que dele tomaram conhecimento através dos seus familiares mais velhos e pela história contada ao sabor dos interesses e da clubite exacerbada que não raras vezes a deturpou e a distorceu de forma propositada. E para aferir a verdadeira realidade, é vital viver os acontecimentos em directo para formar a nossa própria opinião e conseguir perceber com exactidão a essência das coisas. E quando tal não acontece ficamos à mercê da complexidade dos relatos e da descrição dos factos bastas vezes ficcionados porque sujeitos a interesses antagónicos.

Acontece que a partir da década de 80 por um conjunto de razões muito diversificado que começou com o encantamento dos cantos da sereia vindos dos lados do Douro, o Benfica foi perdendo protagonismo e resvalando para um caminho perigoso que desembocou na crise de finais do século XX em que, para além da intermitência e ausência de resultados desportivos, se juntou uma acentuada degradação do estado financeiro. Não foi por isso uma total surpresa a ascensão do FC Porto de Pinto da Costa com a introdução de um monopólio de títulos muitos deles obtidos através de processos altamente duvidosos mas que foram sendo sancionados pelas sucessivas conjunturas totalmente dominadas pelos homens do aparelho pintista a nível dos diversos centros do poder.

Paradoxalmente foi preciso bater no fundo para os benfiquistas começarem a acordar do seu longo sonho letárgico. A tarefa apresentava-se gigantesca porque na prática era preciso quase começar tudo de novo tal o estado de degradação a que o clube tinha chegado. Desconhecedores da verdadeira realidade do clube muitos pensaram com ligeireza que bastariam poucos anos para o clube se levantar pujante e recuperar a aura de outrora. Para além da recuperação da credibilidade e da situação económica e financeira que era preciso encetar sem demora, juntava-se em simultâneo a necessidade de ganhar títulos e para isso havia que consolidar estruturas e formar equipas competitivas para vencer uma vez que essa é a essência do clube. Tarefa demasiado complexa e exigente que para os mais conscientes era impossível de conciliar.

Tendo havido avanços significativos em praticamente todas as áreas da governação, ficou a faltar o principal para a esmagadora maioria dos adeptos – títulos, um divórcio que durou uma década pois só foi interrompido na temporada de 2004/2005 e, depois de novo hiato, repetiu-se em 2009/2010. Muito pouco para o riquíssimo historial do Benfica. Apesar de nova recaída na época seguinte, os mais avisados sentiram que o processo de mudança estava finalmente a dar passos firmes e convictos, faltando apurar a extensão do horizonte temporal para o começo da mudança de ciclo. E isso viu-se logo a seguir apesar de haver o firme convencimento de que não seria nada fácil ultrapassar poderes instalados há muito.

Nas duas últimas épocas foi nítido e patente que as assimetrias se tinham reduzido de forma substancial. Se na primeira, os indispensáveis factores externos que têm vindo a escrever a história conspurcada das últimas décadas atingiram especial relevância nas derradeiras jornadas do campeonato em Coimbra e na Luz, nenhuma dúvida que na última acentou-se a tendência de recuperação e apenas nos podemos queixar de nós próprios. Esse espiral ascendente voltou a materializar-se esta temporada e para já, a 8 jornadas do fim, é preciso acentuar que há muitos anos que não nos encontrávamos em posição tão previlegiada para voltar a conquistar o título, desta vez sem termos de perfazer a 5.ª temporada de jejum.

Não cremos que o constante evocar do passado recente seja a melhor forma de conquistarmos o próximo futuro. Ainda que a lição não tenha sido esquecida, o foco deverá ser o hoje e sobretudo o amanhã. Com a consciência plena de que na vida e por maioria de razão no futebol, os factos são constantes do presente e podem mudar a cada instante. Compete-nos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que seja a nosso favor. A avaliar pelo que ontem vimos com o Estoril estamos cada vez mais convictos de que estamos no bom caminho. Mas não podemos cometer o erro de pensarmos que tudo está feito e subestimarmos os adversários quaisquer eles sejam. Se não o fizermos e mantermos a mesma atitude e a mesma determinação, estamos certos de que chegaremos lá.






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