Ponto Vermelho
Focalização excessiva
12 de Março de 2014
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Neste incrível Futebol português onde se procuram com afã justificações para esconder debilidades e incompetências próprias para desculpar insucessos, as culpas recaiem sempre em alguém que esteja mais à mão. Pela história que tem desfilado nas últimas décadas observa-se que os dirigentes com os inúmeros erros que têm cometido e que ajudaram por acção ou omissão à construção de um Sistema tenebroso que se foi consolidando e refinando, acabaram por se envolver num clima turbulento de constantes picardias entre os próprios. Uns a defenderem o poder que construiram através de todo o tipo de expedientes e beneficiando da inércia de alguns, outros a lutarem em flagrante desigualdade para ultrapassarem esse flagelo. Entre essas duas posições extremadas tem havido os que apoiam tacitamente os primeiros por flutuarem ao sabor do poder.

O principal instrumento de afirmação desse famigerado Sistema como é sabido, tem sido desde sempre a arbitragem. Mas também os órgãos de justiça desportiva. Se recuarmos até meados da década de oitenta quando o poder ainda estava nos primórdios e não era muito visível os seus efeitos, poderemos fazer um contraponto com as décadas seguintes. E observar-se que a partir daí de forma gradual, para além dos factos e acontecimentos que sempre sucederam e tidos como erros típicos de arbitragem, passaram a inclinar-se e a seguir em exclusividade numa determinada direcção, quer com benefícios directos quer através de prejuízos dos adversários susceptíveis de lhes causarem mossa. Foi altura em que, sem segredo, havia enaltecimentos públicos de que a arbitragem e a justiça são para nós; vocês podem ficar com tudo o resto, incluindo a presidência da Federação.

Assim se passaram anos e anos a fio com toda a espécie de manipulações que renderam sucessivos campeonatos ao FC Porto e o completo domínio de todas as vertentes organizativas do Futebol português. Dos clubes que poderiam fazer frente e contestar esta situação aberrante, o Benfica a caminhar em plano inclinado até ao definhamento final, e o Sporting sempre com a fobia do vizinho, uma faceta habilmente explorada por Pinto da Costa, por incapacidade e erros estratégicos não souberam ou não foram capazes de ao menos beliscar o poder então já a consolidar-se. E assentando a base principal do seu negócio no futebol, sem vitórias não há dinheiro e sem dinheiro não pode haver uma gestão equilibrada e muito menos equipas competitivas. Como se isso não bastasse o Sporting acabou por se aliar vivendo debaixo da asa protectora do FC Porto durante uma década, da qual está agora a tentar desesperadamente sair. Por isso está a sofrer na pele.

O Benfica, passado o primeiro período de recuperação da fase crítica em que se encontrava, cedo percebeu que para conseguir ir mais além na vertente desportiva teria que combater o Sistema ainda que com armas desiguais. No Sporting, houve entretanto um hiato no tempo de António Dias da Cunha que criou uma vaga de esperança no combate à organização, mas que rapidamente se desvaneceu. Competiu ao Benfica prosseguir sozinho a luta ainda que os erros de estratégia lhe tenham dificultado a tarefa. Mas o advento do Apito Dourado com todas as suas implicações e alertas à opinião pública foram um precioso aliado e colocou em estado de alerta os seus principais mentores. Desde então passou a haver muito maior cuidado recorrendo à sofisticação dos meios utilizados.

Mas os efeitos negativos continuaram a fazer-se sentir sobretudo no Benfica que foi por diversas vezes espoliado de forma clara, sendo que as suas intervenções públicas de indignação e de denúncia mereceram o tratamento que se sabe. A todos os níveis. Quando observamos agora esta cruzada permanente do Sporting contra a arbitragem apoiada na razão dos factos e que curiosamente tem recolhido um leque de opiniões tão favoráveis, não deixamos de nos interrogar como teria sido há mais de uma década se, em vez de ter estabelecido um pacto com o Sistema, se tivesse dedicado a combatê-lo e a restabelecer as bases da sua própria independência. Nunca se virá a saber mas teria sido deveras interessante sendo que o Futebol português teria porventura mudado…

A arbitragem por ser o rosto mais visível tem absorvido a centralização dos erros. Tem tido, como é evidente uma importante quota-parte através de desempenhos paupérrimos e influenciadores de jogos e campeonatos como em inúmeras vezes aqui o afirmámos. Mas ainda que continuem os escândalos não se pode comparar com aquela que existia, por exemplo, no tempo dos velhos xitos. Existe actualmente incompetência e falta de vocação na maioria dos árbitros pelo que é urgente procurar respostas e aí terão que ser os órgãos competentes a fazê-lo. Mas tudo isso, a despeito de ser uma parte deveras importante, não chega. Há que cavar mais fundo e ponderar sobre todo o edifício. Sem que isso seja feito, poderemos continuar a indignarmos sobre os males de que padece o nosso futebol que nunca sairemos do mesmo sítio…








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