Ponto Vermelho
Um país surreal
29 de Março de 2014
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«Ninguém em seu juízo perfeito, excepto talvez um masoquista irrecuperável, irá voluntariamente consentir em ser tratado como de facto o Governo trata os seus cidadãos.»- Robert Higgs

1. Para todos aqueles que do alto da sua ignorância congénita teimam em considerar a sempre actual turbulência no Futebol português como uma degenerescência da sociedade, os deploráveis exemplos que o poder político nos tem transmitido ao longo dos tempos são motivo mais do que suficiente para que a opção coerente fosse a de enfiarem a viola no saco. Com especial incidência nos últimos anos, os despautérios deveriam servir-lhes de lição e circunscrevê-los à vil tristeza dos actos perpetrados a mando, encenados por uma casta de incompetentes e executados por imberbes irresponsáveis onde a inexperiência e a impreparação constituem apenas o primeiro sinal da insuficiência de valores de uma sociedade em decadência em que o poder é exercido de forma fascizante. Porque não concede aos cidadãos de menores recursos e aos desprotegidos quaisquer hipóteses de se defenderem da vilania.

2. Enquanto nos deixamos arrastar passivamente para o abismo esperando que sejam estancadas as surpresas desagradáveis que nos esperam todos os dias e que provocam incertezas e ansiedades no quotidiano de cada cidadão e que, pelos vistos, não acabarão na existência terrena de dezenas e dezenas de milhares de cidadãos desesperados e sem alternativa, vamos assistindo ao desfilar de medidas que o poder político sem excepção vai tomando, desfiando um rosário de desgraças sem paralelo e sem que se percebam os fundamentos ainda que se entenda demasiado bem o alcance dos objectivos: reduzir os parasitas da sociedade que cometeram o pecado capital de trabalhar durante décadas para que este País continuasse a sustentar um séquito de inúteis descentralistas que na teta se apressam a beber o leite da vaca sem alguma vez a terem levado a pastar. Não é, infelizmente, uma constatação do presente.

3. Numa constante difusão de medidas intermináveis acabamos de ser confrontados com mais uma de longo alcance e que revela até que ponto chega a subserviência. Há muito que já tínhamos percebido que ao contrário do que defende o slogan: o que é nacional é bom, os representantes políticos deste País estão completamente submergidos à vontade de interesses que não são seguramente os do povo português que em primeira instância deveriam representar pois foi para isso que foram eleitos. Primeiro, qual clube de futebol em sérias dificuldades, foi o desfazer do património au bon marché, depois veio a Troika em que quais estudantes aplicados quiseram demonstrar que eram capazes de obter mais e melhores resultados do que os professores e, finalmente, aquela acabada de tomar pelos representantes do povo de conceder isenções fiscais à final da Liga dos Campeões a realizar em Maio no Estádio da Luz.

4. Não temos a menor dúvida de que aqueles que estão habituados a fazer longas dissertações sobre demagogia e em que, para além disso, deles não se conhecem outras públicas virtudes, justificariam medida tão estruturante como vital para o País. Também nenhumas interrogações nos assaltam sobre o que seria uma medida algo compreensível num contexto de abastança ou, se quisermos, num cenário de menores dificuldades. Mas no preciso momento em que os portugueses estão a atravessar uma das maiores crises de uma história de quase 9 séculos em que se interrogam hoje como vão conseguir sobreviver amanhã, em que o Governo e as suas muletas na ânsia de reduzir a expressão demográfica dos inúteis e o peso dos seus próprios servidores anuncia continuamente, qual unidade de intensiva de produção, mais medidas gravosas, tomar essa medida aqui e agora é, não encontramos outra expressão melhor, insultar os portugueses que asfixiados de impostos não têm escapatória possível.

5. A situação é tanto mais surpreendente se atendermos que a UEFA como entidade organizadora da final de Lisboa é, como todos sabemos, uma organização abastada e geradora de milhões e onde a crise, seja qual for a forma de que se revista nunca chega a entrar, também devido à aplicação de medidas avulso como a agora tomada e que ajudam a alimentar o poderoso superavit em que navega em permanência. No entretanto os clubes definham. E em Portugal os malucos e insensatos adeptos se querem ter o previlégio de assistir a um jogo ao vivo terão que contribuir com a módica percentagem de 23% para o Estado glutão e asfixiador. Como diria um político caído em desgraça mas entretanto reabilitado com juros, aplica-se o princípio do utilizador-pagador. Afinal quem manda os adeptos gostarem de futebol?










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