Ponto Vermelho
A nova batalha de Platini
1 de Abril de 2014
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1. De há tempo a esta parte dois temas candentes têm vindo a ocupar a atenção de duas entidades governamentais: no campo político o da U.E e de diversos governos com algumas Offshores no ponto de mira e, no campo uefeiro, em que o seu principal dirigente, o francês Michel Platini, o tal que com visão retrógrada se opõe tenazmente à introdução de novas tecnologias no futebol, declarou guerra sem quartel aos Fundos de Investimento. Ainda recentemente de forma pública, instigou o seu colega da FIFA Joseph Blatter, a concentrar-se no assunto.

2. No primeiro caso ninguém ignora que subjacente a tudo isso está a tentativa de controlar todo um mundo de expedientes assumidamente praticado em Offshores sem qualquer tipo de controle. A fuga aos impostos e a lavagem de dinheiro proveniente de uma infinidade de situações de tráfico serão porventura, as mais importantes. A despeito das medidas que têm sido tomadas a nível de governos de todo o mundo, da elaboração de blacklists e da introdução sistemática de mecanismos de controle cada vez mais complexos a nível do sistema financeiro, a realidade é que ainda está algo longe de ser estancada a preocupação de uma grande parte de governos. Os avultados montantes que são por via disso movimentados permitem a criação e o desenvolvimento de contra-medidas que evitam em muitos casos a sua detecção, o seu controle, e o seu expurgo definitivo.

3. À custa de serem referidas vezes sem conta pelas várias entidades sempre no sentido negativo, a opinião pública tem delas uma ideia de clandestinidade e de negócios obscuros que nem sempre deve ser considerada como verdade imutável. No espaço europeu onde existe, por exemplo, livre circulação de capitais entre os próprios países membros, não foram as grandes diferenciações nas taxas de tributação que levaram, na circunstância, algumas empresas portuguesas do PSI 20 a transferir a sede das Holding para a Holanda? Então o que deverá impedir um cidadão-contribuinte de um qualquer país que disponha de meios obtidos sem mácula, de procurar formas legais de diminuir a sua carga tributária numa Offshore desde que esta cumpra todas as regras estipuladas internacionalmente?

4. Não há dúvida que muitas têm sido as dificuldades neste combate atendendo a que alguns dos países que mais se têm batido pela causa têm, eles próprios, Offshores sediadas nos seus próprios territórios… Acaba por ser um exercício com alguma hipocrisia que urge assinalar por revelar factos absolutamente contraditórios. E não é que afinal, não muito longe de nós, está situada a maior Offshore da Europa e muito provavelmente do Mundo?... Um tema que daria certamente pano para mangas!

5. Há pouco mais do que uma década começaram a surgir no Futebol os Fundos de Investimentos em jogadores tal como os conhecemos. Inicialmente de forma tímida, mas com os primeiros resultados obtidos e as fortes expectativas que passaram a gerar, alargou-se o leque de interessados que viram aqui uma excelente oportunidade de negócio. Tal como o universo das Offshore, também os Fundos proliferaram passando a haver muitos de duvidosa reputação e fora de controle. Nem dos seus detentores nem da respectiva proveniência dos fundos, não sendo difícil de imaginar que em muitos casos a sua origem é nebulosa com movimentações através das tais offshores clandestinas.

6. A Inglaterra, ela própria com Offshores às portas, certamente por dificuldades encontradas no controle e verificação definiu regras nesta matéria. Chegou agora a vez de Platini que faz bem em levantar esta questão a nível global. Mas não nos parece que seja através de medidas radicais porque há Fundos… e Fundos. Desde que estejamos a falar na definição de regras claras e transparentes e mecanismos de controle em que se sabe sempre quem é quem e como são gerados os fluxos financeiros dos mesmos, não nos parece que advenha mal ao mundo para os que respeitem integralmente todas as coordenadas.

7. É evidente que seria desejável que os clubes pudessem adquirir e deter sempre a totalidade dos direitos económicos dos jogadores e nem Fundos nem empresários ou quem quer que fosse alheio aos clubes deveria detê-los. Mas aqueles clubes que não têm à sua disposição Sheiks, Oligarcas ou outras emanações e que sejam financeiramente débeis mesmo que historicamente importantes, com a crise que assola o velho continente não têm hipóteses sequer de, por exemplo, adquirir jovens atletas com larga margem de progressão para depois obterem a devida compensação na sua tesouraria. A menos que a UEFA queira mesmo o futebol a duas velocidades…






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