Ponto Vermelho
Para quando moderação?
2 de Abril de 2014
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«Moderação é a primeira virtude de um cidadão»-Henrik Ibsen

1. Temos assistido não sem alguma preocupação enquanto adeptos do futebol, à escalada verbalista do novo Presidente do Sporting. Aquilo que partiu de pressupostos compreensíveis – apresentar-se à tribo do Futebol e trazer de novo o clube para a ribalta depois de anos e anos de penumbra e submissão – tem derivado para caminhos algo tortuosos e tenderá a agravar-se se porventura não houver mais ponderação. Uma coisa é manifestar o seu inalienável direito à indignação por aquilo que julga serem os prejuízos ao seu clube, outra completamente diferente é insistir sem descanso numa tecla demasiado empolada onde o populismo, o exagero e nalguns casos a extravagância, podem vir a originar mais problemas que soluções para os males que o afligem e quer debelar.

2. O aparecimento de Bruno de Carvalho (B.C.) que teve tempo e vontade para se preparar desde as anteriores eleições cuja derrota nunca foi por si e pelos seus apoiantes bem digerida, pela sua juventude, pela sua dinâmica e pelas suas ideias, despertou em alguns a convicção de que poderia representar uma lufada de ar fresco neste futebol poluído. Sobretudo a partir do momento em que, de forma rápida, levou a que a imagem tradicional do Sporting que conhecémos num passado algo distante fosse reabilitada. Os velhos problemas de comunicação foram resolvidos, as ancestrais conspirações congeladas, o conjunto diversificado de papagaios perdeu o pio. Estrategicamente é certo. É no entanto evidente que o milagre da redução de 130 milhões de passivo propagandeados por B.C. só mesmo na sua imaginação sem limites. Mas isso são minudências e para acreditar quem quer.

3. O voluntarismo de que tem dado mostras tem conduzido a um conjunto muito variado de propostas cobrindo quase todas as áreas que, em seu entender, ajudariam o Futebol português a sair de um certo tribalismo. Algumas aceitáveis e perfeitamente enquadráveis na discussão no seio da Liga e da Federação, outras nem tanto porque extravazavam o âmbito daquelas duas entidades e colidiam com disposições da FIFA e da UEFA e, finalmente, ainda outras que pertencem em exclusivo ao poder legislativo seja ele a Tutela ou a Assembleia da República. Mas ficou desde logo registada a intenção, aparte a textura das propostas.

4. Como na altura afirmámos e sem prejuízo do mérito da iniciativa, antes de serem entregues a quem de direito e tornadas públicas, teria sido preferível uma discussão mais alargada para as enriquecer e lhes transmitir maior força. Não se tratava de pugnar por alianças com quem quer que fosse para abrir uma fonte de combate e derrubar os actuais poderes instituídos, mas tentar regenerar por dentro o Sistema e para isso tornava-se necessário o mais amplo consenso possível, transmitindo a ideia de que o que se pretendia era democratizar os poderes do futebol colocando-os de vez ao serviço de todos os clubes independentemente da sua dimensão e da sua importância. Percebe-se todavia porque o Sporting agiu isolado.

5. Como é hábito acontecer, as propostas estão a seguir o trajecto de tantas outras. Mas entretanto o futebol não pára e já caminha em passo acelerado para o desenlace. A equipa leonina com mérito de toda a sua estrutura está num surpreendente 2.º lugar, sendo que todas as previsões apontam para que lá continue até final, assegurando entrada automática na Liga dos Campeões de onde andava arredada desde a época de 2009/2010. Para a esmagadora maioria dos sportinguistas que quando se iniciou a época esperavam tão somente uma participação digna e o eventual acesso à Liga Europa, é sem dúvida um feito inenarrável, diríamos mesmo um factor deveras excitante.

6. Talvez tenha sido essa excitação que tem motivado a escalada do presidente leonino que não pode ignorar que é líder de um clube que agrega milhares e milhares de adeptos e simpatizantes ávidos de vitórias e que acabam por ser influenciados por atitudes excessivas e populistas de quem dirige, mesmo que partam de pressupostos com alguma lógica de sustentação. A recorrência das atitudes acaba por banalizar e diminuir o alcance da razão. E sem que, no seu trajecto, não hajam comportamentos que contrariam frontalmente os objectivos defendidos. O recém criado "Movimento Basta!" que resulta de uma ideia por si defendida, ainda ontem na Sede da Federação voltou a demonstrar o perigo do populismo levado ao extremo. É tempo de BC se moderar e dizer Basta! a atitudes e acções que em nada o ajudam naquilo que diz ser o seu objectivo de moralização do Futebol português.








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