Ponto Vermelho
Mais fácil do que se supunha
8 de Abril de 2014
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Se o resultado de um jogo de futebol se circunscrevesse à categoria das equipas, à extensão e qualidade dos plantéis, aos orçamentos e às ambições, poder-se-ia aplicar a lógica e o resultado final não fugiria muito da soma das várias componentes. As casas e os sites de apostas não teriam vida longa e com toda a probabilidade a média de assistências diminuiria drasticamente. Porque não haveria incerteza, emoção sobre o desfecho, a menos que, contrariando tudo isso, funcionasse o esquema dos resultados combinados que já afectaram gravemente a verdade desportiva do campeonato italiano e a de outros países.

Aquela lógica de raciocínio poder-se-ia aplicar ao jogo de ontem entre o Benfica e o Rio Ave que fechava as contas da 26.ª jornada. À partida para esse jogo os encarnados eram melhores em tudo, excepto no desempenho defensivo fora de portas onde os vilacondenses detinham a primazia. Se aliássemos essa constatação ao facto do Rio Ave ter uma performance largamente positiva nos jogos fora (21 pontos contra apenas 10 em casa), teríamos um cenário menos gravoso mas ainda assim deveras desequilibrado. Logo, se funcionasse apenas e só a lógica teríamos uma vitória do Benfica sem qualquer tipo de discussão. Mas quem, por mais optimista que fosse, poderia afirmar que assim iria ser?

Desta vez a lógica funcionou porque também o Benfica fez por isso e surgiram em campo os factores desiquilibradores em que se sabia ser superior e o Rio Ave não conseguiu encontrar os antídotos para obstar a essa afirmação. Se existe verdade na velha conclusão de que uma equipa joga aquilo que a outra a deixa jogar, então temos que essa assumpção se aplicou com rigor à partida de ontem. Se o Benfica transmitiu uma das boas imagens desta época, os homens de Vila do Conde não conseguiram espelhar no terreno a razão dos seus sucessos fora de portas. E associado a isso a razão de serem até aí a defesa menos batida, sem que isso diminua o seu passado neste campeonato. Apenas aconteceu que o Benfica manteve um rendimento uniforme com os seus elementos mais desestabilizadores a soltarem o melhor que há em si. E quando assim sucede a equipa do Benfica fica mais próxima de se tornar insuperável.

O presente campeonato há muito que revela tendências claras. Com o FC Porto inesperadamente fora de combate, competiu ao renovado Sporting salvar as honras do convento numa competição que em boa verdade, tal como nos anos em que os portistas rapidamente se afastavam, não teve para os adeptos em geral, aquela incerteza e emoção que costuma caracterizar os campeonatos mais competitivos. Como a Inglaterra (de forma mais alargada) e a Espanha, ainda que esta com apenas tradicionalmente dois clubes a disputar o ceptro. E se tem havido animação mais prolongada, tal deve-se às anormais circunstâncias que caracterizaram o final da última época e do pessimismo que invadiu o espírito dos adeptos benfiquistas mais desconfiados.

Terá sido também isso que tem levado à atitude prudente dos responsáveis encarnados que se recusaram a embarcar em euforias que não se justificavam apesar de todos os indicadores apontarem em sentido contrário. Neste caso a nossa latinidade foi renegada e assumida a velha cultura anglo-saxónica de poder dizer-se, quando altura for, de que fizémos em vez do tencionamos fazer. Tem sido difícil resistir a um cenário que a cada jornada se torna mais verosímel, mas é indiscutível que essa tem sido a melhor atitude. Porque mantem a equipa centrada no objectivo, e os adeptos (embora seja impossível impedir situações do mais puro optimismo), mantêm-se igualmente concentrados na difícil tarefa de não propagarem aos jogadores uma euforia que sendo legítima, será sempre prematura enquanto o autocarro não chegar à paragem.

À medida que se vão esgotando as jornadas mais se torna visível que só um cataclismo afastará o Benfica de ser campeão. Não há como negá-lo. Mas, apesar de estar já a ser avistado no horizonte falta ainda um bocadinho assim que, estamos convictos, será atingido dentro em breve. Mas para isso há que manter o foco assestado. Existindo igualmente outras metas que se cruzam no horizonte das àguias, compete ao grupo de trabalho ponderar a gestão que delas deverá ser feita e a forma como deverão ser encaradas, tendo que lidar sempre com o fantasma que ainda ensombra o espírito de alguns adeptos. Mas, como todos os fantasmas há que saber lidar com eles e erradicá-los. De uma vez por todas.

P.S. 1- O estado de exaltação que se verificou ontem nas bancadas foi ensombrado pelo falecimento inesperado de um adepto benfiquista. Uma triste ocorrência que revela a forma intensa como os adeptos vivem o clube. Razão acrescida para que o grupo de trabalho faça todo o possível para honrar a sua memória
P.S. 2- Parece não haver remédio eficaz para os bombistas que ontem, para variar, voltaram a actuar. Nem as multas nem as ameaças de sanções pesadas os demove de uma prática censurável. Será que só param quando for de todo impossível reparar os estragos?








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