Ponto Vermelho
Abril e as eternas minudências do nosso Futebol
12 de Abril de 2014
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Quarenta anos depois de Abril a democracia plena continua por implementar, assistindo-se a cada passo a uma inversão de valores por personagens que mesmo atravessando parte da sua existência após a restauração da liberdade ou tendo mesmo nascido já depois, defendem posições mais consonantes com as regras ditatoriais de castração desse insubstituível valor que vigoravam antes desse memorável evento. A liberdade é um direito inalienável de cada cidadão e o reconhecimento do seu valor é tanto maior para os que dela estiveram privados e lutaram pelo seu restabelecimento.

Alguns, cujos acasos da vida os tornaram figuras públicas sem que tivessem feito algo de relevante para o merecer, do alto das facilidades que a vida lhe proporcionou e da arrogância que deriva da insegurança e incompetência que os persegue, apaixonam-se amiúde pelos disparates que protagonizam como se de brilhantes feitos se tratasse. Obviamente não se dão conta do ridículo que os atinge. Outros, inebriados pelo exercício do poder momentâneo, assumem protagonismos escusados que em nada dignifica o lugar que ocupam na hierarquia e acabam por prejudicar sempre os mesmos – os cidadãos menos bafejados pela sorte e que não tiveram acesso a quaisquer tipo de facilidades.

Pelo que é dado observar pelo andar da carruagem, mantendo-se o actual estado de circunstâncias em que até os capitães de Abril são desrespeitados como se tivessem que pedir desculpa por terem lutado e restituído a liberdade, a democracia e permitido aos que agora os vilipendiam o exercício do poder, é até provável que o 25 de Abril deixe de ser comemorado para poupar uns cobres para satisfazer a personagem (e não só) que ocupa neste momento a segunda posição na hierarquia do Estado. A menos que seja criada mais uma PPP… Ao que chegou este País que nem sequer sabe proteger e respeitar os seus valores e ideais mais nobres.

Desta diversidade de posições retrógradas que não são de agora, têm resultado mentalidades distorcidas assimiladas pelas novas gerações. No futebol aquilo que se ouvia em surdina e agora se sabe com pormenores escabrosos de apenas uma pequeníssima parte do icebergue, contribuiu decisivamente para que instigados por dirigentes e quejandos, a generalidade dos adeptos passasse a desconfiar de tudo e de todos como se o que ocorre nunca seja por acaso, mas antes de perigosas maquinações na escuridão dos corredores onde infelizmente parte das situações se decidiu nas últimas décadas. Todos sabemos que assim foi e não há como negá-lo.

Dissemo-lo em inúmeras ocasiões e voltamos a reafirmar esse passado que constituiu uma vil tristeza para os que defendem valores contrários a essas práticas abomináveis. A verdade desportiva foi bastas vezes atingida, havendo que tirar as devidas ilacções para que todos façamos os possíveis para que nunca mais volte a acontecer, sabendo de antemão que ninguém é perfeito e que é impossível tudo extirpar. Todos queremos ganhar mas devemos fugir à tentação de fazê-lo a qualquer preço, seja qual for a côr que esteja em equação. Mesmo que isso seja sublinhado como sinónimo de grande visão estratégica.

Compreendemos algumas posições que têm vindo a ser tomadas sobre a verdade desportiva muito embora nem sempre concordemos com elas. As mentalidades conservadoras a que aludimos continuam a andar à solta por aí e, ligadas à paixão clubista e nalguns casos ao anti-benfiquismo, propalam inverdades e teses infundadas que acabam por influenciar o mais comum dos adeptos. Curiosamente, ou talvez não, é da parte de alguns que viveram atrelados e contentinhos da vida durante mais de uma década que mais se sente o incómodo. A isso, evidentemente, não é alheio o facto do Benfica estar na eminência de ser campeão.

Ainda que apenas com ruído de fundo tais as evidências, tem havido alguns tímidos ensaios para reeditar a época de 2004/2005. Nessa altura, o factor decisivo foi a falha de Ricardo na Luz que se tornou determinante para que o Benfica fosse campeão. Mas antes, o jogo com os estorilistas no Algarve causou celeuma despropositada e provavelmente empolada por o Estoril ser na altura presidido por um ex-dirigente encarnado. Se há razões do passado que servem de aviso para que estejamos sempre em alerta, temos que saber distinguir com objectividade para que não caiamos na paranóia de suspeitar de tudo o que mexe.

Arouca 2014. Não vai haver verdade desportiva porque o Sporting jogou em condições atmosféricas adversas no batatal de Arouca e o Benfica vai jogar em Aveiro num relvado excelente, com tempo primaveril e perante adeptos largamente maioritários. É claro que nenhuma analogia deve ser feita com o jogo da 1.ª volta na Luz onde nem o apoio dos 29.000 adeptos encarnados, valeram ao Benfica mais do que um empate... Como também não pode ser evocado o jogo de Barcelos num campo impróprio devido justamente às condições climatéricas, em contraponto com o relvado em boas condições que coincidiu com a deslocação do Sporting. Ai esta verdade desportiva…




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