Ponto Vermelho
Sinfonia dos nobres
24 de Abril de 2014
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Não duvidamos por um só momento que terá sido extraordinariamente difícil a um leque alargado de sportinguistas observarem a estátua do Marquês de Pombal vestida a rigor com uma enorme camisola do Benfica com o número 33 estampado, e assistirem contrariados às efusivas manifestações de júbilo encarnado que entupiram as principais artérias circundantes e levaram as insuspeitas ESPN norte-americana e BBC inglesa a estimarem através de uma bela e extraordinária imagem que correu mundo, a presença de 500.000 pessoas no local. Como não deverão ter aceite de bom grado o destaque que todas as emissoras, antenas e órgãos de informação atribuiram à festa do título encarnado.

No fundo, confirmou-se tudo o que já se sabia há muito: para a esmagadora maioria dos sportinguistas é muito complicada a digestão de qualquer êxito encarnado, seja ou não através de compita directa. Por azar, outras coisas mais, inabilidade encarnada e sorte sua, no campeonato maior nos últimos anos esse sentimento e essa ansiedade que parecem atormentá-los e afligi-los a cada momento não têm acontecido com regularidade. Situando-se de forma recorrente fora da órbita da discussão do título há mais de uma década, têm-se alimentado da ilusão de não verem o Benfica sagrar-se regularmente campeão, provando a velha tese derrotista e retrógrada de já que, se não podemos ser nós, ao menos que não seja o Benfica.

Não surpreende pois minimamente que face à inevitabilidade que desfilou perante os seus olhos se tenham apressado a desvalorizar o êxito encarnado, rotulando-o de obrigatório face a um conjunto de circunstancialismos que, sem sua opinião, teriam concorrido para que os encarnados tivessem alcançado tal desiderato. Dando de barato a já desgastada lenga-lenga das equipas de arbitragem se terem conluiado para tramar o Sporting como se, pelo menos na última década, o clube de Alvalade fosse declaradamente o inimigo a abater, havia que encontrar outras motivações e outros argumentos que conseguissem atrair a atenção dos adeptos mais crédulos que continuam a acreditar piamente nesse rambório cada vez menos convincente.

Um deles – o annus horribilis do FC Porto –, ajuda à defesa da tese, e um outro, – subdividido – pelo fraco orçamento do Sporting e pela perseguição das arbitragens, justificam em grande medida o êxito encarnado. Subtraindo essas duas componentes de peso pouco sobra, afinal, para o mérito do Benfica que se limitou a retirar os dividendos e a fazer a sua obrigação. Conclusões brilhantes que ilustram bem até que ponto vai a cegueira leonina. Uma demonstração inequívoca em como os êxitos alcançados pelo vizinho continuam sempre a incomodar. Que diacho; pelo que conhecemos da carruagem, não estávamos à espera de felicitações nem sequer do reconhecimento do mérito, mas seria da mais elementar justiça não andar a tentar fabricar deméritos…

Seria lógico que a nação sportinguista, depois das terríveis agruras da última temporada, se concentrasse na brilhante recuperação da sua equipa e no lugar alcançado que lhes concede o direito a participar directamente na Liga dos Campeões e inclusivamente ficar englobada no Pote 3 em mais um acaso positivo. Para além do mérito inquestionável que fazemos questão de reconhecer, se perfilhássemos a sua linha de raciocínio teríamos que dizer que tal aconteceu precisamente devido à má temporada do FC Porto que, por acaso, tinha o orçamento mais generoso de todas as equipas participantes no campeonato. O que veio provar, mais uma vez, que nem sempre os maiores orçamentos ganham campeonatos ou alcançam melhores posições como aliás o Sporting teve a oportunidade de comprovar na época anterior…

O Sporting por um conjunto de circunstâncias que parecendo ser gravosas desportivamente acabaram por redundar em factores positivos, conseguiu algo que nem os seus adeptos mais optimistas esperariam. Reergueu-se e marcou posição na grelha que o seu passado histórico justifica. Aparte algumas coincidências que o ajudaram, isso deveu-se ao empenho e ao mérito do grupo de trabalho que foi alcançando no campo, jogo após jogo e com maior ou menor grau de dificuldade, as vitórias que acabaram por lhe garantir um impensável 2.º lugar. Concentrem-se nisso e sobretudo no melhor uso a dar-lhe face à responsabilidade e às expectativas que foram criadas e que irão ter cobrança pelos adeptos já na próxima época. Isso, por força de constituir uma tarefa absorvente, deveria ser motivo para não desvirtuar o inquestionável mérito dos outros. Ou será que o mérito nasce e morre apenas dentro dos muros de Alvalade?








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