Ponto Vermelho
Regresso às noites europeias
25 de Abril de 2014
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1. Ontem à noite, aparte o resultado e as incidências do jogo, regressou-se em plenitude ao ambiente das antigas noites europeias. Nos últimos tempos várias equipas de nomeada têm visitado o Estádio da Luz mas em nenhuma delas se sentiu o ambiente entusiasta e frenético que costumava caracterizar o anfiteatro encarnado e que, ao mesmo tempo que galvanizava os jogadores benfiquistas e os empurrava para a vitória, o tornou temido pelos adversários. Ontem, por um conjunto de circunstâncias a concorrerem para o mesmo fim, o Inferno da Luz voltou. Esperemos que seja para ficar porque isso será sinal de que foi recuperada de vez a mística como imagem de marca da equipa do Benfica.

2. Para que isso tivesse acontecido não será porventura indiferente o actual estado de graça da equipa encarnada que vencendo o campeonato, deu origem a uma explosão de alegria e de entusiasmo que acabou por surpreender até os próprios jogadores, especialmente aqueles que ainda não tinham vivido a alegria da conquista de um título no Benfica. E eram vários. Para além disso, o facto de se estar a repetir a história da época transacta para já com êxito, enfatiza a necessidade dos jogadores darem o melhor de si próprios. E os adeptos, mesmo aqueles que durante a época foram demonstrando o seu cepticismo, acabaram por se render às evidências. Faltam os episódios finais que vão determinar se a época será apenas boa ou se passará a ser excepcional e única.

3. O ambiente que ontem se viveu foi empolgante. Pelo valor do adversário, pela conjuntura que os benfiquistas estão a viver e pela confiança que a equipa tem revelado. Prova disso foram os 55.779 espectadores que afluiram à Luz na convicção de que não só iriam assistir a um bom espectáculo de futebol entre equipas de forte tradição europeia, como veriam o Benfica a provar que tinha condições para se bater de igual para igual com o seu opositor. Pena foi que Cuneyt Çakir que recorde-se, já tinha levantado algumas dúvidas aquando do Europeu de 2012 com a sua nomeação para o Espanha-Portugal, não tenha estado ao mesmo nível das duas equipas. Disciplinarmente foi rigoroso para os jogadores encarnados e brando para os italianos, enquanto que no aspecto técnico ao não assinalar um penalty do tamanho do Hagya Sophia contra a Juve, fez-nos lembrar as habilidades de um certo seu colega português…

4. Em jogos entre equipas desta dimensão é frequente o resultado ser decidido através de detalhes. Algumas vozes pronunciaram-se sobre a possibilidade de haver situações de cariz político a poder influenciar o resultado da eliminatória atendendo ao facto da Juve ser a equipa mais desejada na final no seu Juventus Stadium e inclusivamente o actual presidente da UEFA ter conquistado vários títulos ao seu serviço. Também não ignoramos que os transalpinos têm muito maior peso nas instâncias do futebol. Mas devia haver limites até porque a Juve tem categoria futebolística suficiente para chegar à final sem que seja através de expedientes que abastardam a verdade desportiva. A ver vamos se o lance da grande penalidade não poderá ter influência no desfecho da eliminatória!

5. O jogo em si foi intenso, competitivo e verdadeiramente digno de uma Champions. Os encarnados, moralizados, abordaram o jogo com confiança nas suas possibilidades com uma excelente meia-hora inicial e manietaram por completo os italianos que não dispuseram de qualquer oportunidade. Na 2.ª parte veio ao de cima uma menor frescura física dos encarnados que ajudou a potenciar de forma exuberante aquilo que já se sabia; os jogadores da Juve possuem um alto índice técnico, são manhosos e calculistas, sendo perigosíssimos no carrossel que desenvolvem sobretudo no ataque onde dispõem de excelentes flanqueadores. O facto dos encarnados terem perdido quase todas as segundas-bolas e a sucessão de passos errados também não ajudou à estabilização do jogo do Benfica.

6. Depois de algumas chances, surgiu o golo do empate através de uma jogada de classe de Carlos Tévez que no entanto não fez esmorecer a equipa encarnada que com sangue novo reequilibrou as operações e haveria de chegar à vitória através de um golo de bandeira de Lima. O resultado alcançado sendo moralizador, deixa no entanto tudo em aberto. E não será preciso fazer futurologia para adivinhar que no jogo da 2.ª mão o Benfica irá encontrar tremendas dificuldades e só um desempenho de excepção poderá conduzi-lo à final. Contudo, é preciso sublinhar que os encarnados estão habituados a ambientes difíceis, costumam concretizar sempre fora e poderão recuperar os lesionados cuja falta se fez sentir ontem. Esta conjugação abre uma clara porta de esperança!

PS – Comemora-se hoje o 40.º aniversário da ‘Revolução de Abril’. Aqui deixamos uma singela homenagem aos “Capitães de Abril” que tornaram possível a restituição da liberdade ao povo português. E perante as circunstâncias em que somos forçados a viver, relembrar uma frase premonitória de um dos seus símbolos, Salgueiro Maia: «Não se preocupem com o local onde sepultar o meu corpo. Preocupem-se é com aqueles que querem sepultar o que ajudei a construir».








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