Ponto Vermelho
Desfile de papagaios amestrados
26 de Abril de 2014
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O futebol português continua o seu trajecto por vielas esconsas e caminhos pantanosos. Esta última guerra de assalto ao poder na Liga de Clubes sob a égide do Sistema e da Federação de Fernando Gomes ainda que aquela se encontre cada vez mais esvaziada de funções e consequentemente do poder, não tem regras definidas e muito menos ética. Os carros de assalto nem sequer hesitam em promover reuniões em bombas de gasolina dando a habitual imagem triste e deprimente que continua a ser o cartão de visita do nosso futebol. Parece, afinal, estar prestes a confirmar-se que quer a Liga quer a Federação foram apenas um mero trampolim para as ambições desmedidas do ex-Administrador da SAD portista…

Mesmo a esta distância ainda estamos para conseguir perceber de forma clara como foi possível a Mário Figueiredo ter atingido a Presidência da Liga. Admitimos que para além de eventuais distracções terá estado subjacente alguma descontracção do poder dominante que nunca terá acreditado verdadeiramente que Figueiredo conseguisse fazer qualquer coisa que de alguma forma pudesse beliscar o império de Joaquim Oliveira e dos tradicionais beneficiários do sistema implantado, com o FC Porto à cabeça largamente destacado.

Foi no entanto, paradoxalmente, através da sinalização da revolta dos pequenos e médios clubes que Figueiredo chegou ao cadeirão da Presidência com duas promessas tentadoras – o alargamento e a centralização dos direitos televisivos –. Se o primeiro dos casos era pacífico – mais clubes significa maiores gastos e mais necessidades de financiamento, logo maior dependência e engessamento ao Sistema -, no segundo a coisa fiava mais fino. Se o principal polo em que assentou o desenvolvimento do empório Oliveira foi precisamente os fabulosos lucros resultantes do monopólio dos direitos televisivos, era da mais elementar coerência de que isso representava um tema tabu de que a Olivedesportos e as suas diversas ramificações só iriam abrir mão se forçadas a isso. E nesse caso, a pergunta legítima seria: por quem?

É por isso que a acção de nulidade dos contratos estabelecidos com os clubes intentada pelo ainda presidente da Liga está há longo tempo a marinar nos sítios do costume, não sendo crível que em tempo útil venha a haver qualquer decisão. No entanto, mesmo com eleições marcadas para a primeira quinzena de Junho e não vá o diabo tecê-las, está a haver tanta insistência em deitar abaixo o Presidente da Liga com base em subterfúgios e expedientes discutíveis, sem que se discutam ideias, se definam programas e se tracem linhas mestras de acção para um futuro global. Na linha da frente estão os habituais papagaios que muito palram e nada dizem que seja verdadeiramente de utilidade.

Na ausência de programas devidamente estruturados e na linha do que costuma caracterizar o meio ambiente, temos assistido embevecidos aos desfile de pseudo-personalidades bem conhecidas e devidamente rotuladas. Desde os inefáveis Rui Alves e José Eduardo Simões passando pelo ainda menos poluído Júlio Mendes, todos têm desfilado na passerele como putativos candidatos ao ceptro. Segundo noticia a imprensa, na última reunião do grupo do Sistema, Pinto da Costa terá mesmo apresentado um documento de apoio e subscrição à candidatura de Mendes mas ao que parece sem o sucesso esperado. Mais uma vez o carro à frente dos bois.

Ainda que a Liga seja uma emanação dos clubes e depois de pelo cadeirão da presidência terem passado vários presidentes dos clubes incluindo do Benfica, não defendemos que o lugar deva voltar a ser ocupado por um presidente clubista em exercício de funções. Pelo contrário, entendemos que seria mais assisado indigitar, por exemplo, um ex-presidente que conseguisse reunir o consenso dos clubes, fosse um profundo conhecedor dos meandros e oferecesse garantias de um bom desempenho. Mas antes, deveria ser elaborado um programa que correspondesse aos anseios da esmagadora maioria dos clubes.

É todavia aí que reside a principal dificuldade. Sem receitas próprias, a grande maioria dos clubes está muito dependente das migalhas que lhes são oferecidas pelo Sistema e continua altamente vulnerável. Para mais tendo em conta a natureza dos contratos à la longue estabelecidos com o operador. Face a esse circunstancialismo limitativo é muito complicada e está comprometida a tarefa de democratizar esse importantíssimo vector e, como tal, de avançar decididamente rumo ao futuro. Não fosse o Benfica ter rompido com essa teia asfixiante e a situação continuaria imutável e integralmente monopolista. Com o novo posicionamento do Sporting é provável que venhamos a ter novos desenvolvimentos. Mas será sempre muito complicado ultrapassar este marasmo e esta estagnação.






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