Ponto Vermelho
Volatilidade
3 de Maio de 2014
Partilhar no Facebook

1. 2013, 11 de Maio. Depois de ter sido eliminado nas meias-finais pelo SC Braga na Taça da Liga por 3-2 através de pontapés da marca da grande penalidade depois do nulo registado no tempo regulamentar, de ter sido apurado para a final da Taça de Portugal e da Liga Europa, o Benfica, depois do deslize na Luz com o Estoril apresentava-se no Dragão na penúltima jornada do campeonato com dois pontos de avanço, significando que em caso de derrota seria ultrapassado pelo FC Porto com apenas uma jornada por disputar. Contudo, a expectativa existia e era muita.

2. Se regressássemos por instantes a esse momento, dir-se-ia que mesmo com as sombras negras da época anterior a pairarem sobre o horizonte encarnado, todos os desejos e expectativas eram legítimas apesar do empate com os estorilistas ter despejado um balde de águia fria sobre o entusiasmo dos adeptos. Falava-se então na possibilidade do Benfica alcançar o triplete, uma situação que poderia perfeitamente acontecer em face do futebol que a equipa encarnada dava mostras. A acontecer seria de facto magnífico para uma equipa com sede de vitórias, pelo que os adeptos rejubilavam com essa possibilidade real.

3. Quanto tudo parecia indicar que o primeiro objectivo se iria concretizar e jogadores, estrutura e adeptos portistas acabrunhados e já rendidos à perspectiva de não conseguirem derrotar os encarnados (bastava avaliar o seu semblante repetidamente mostrado pelos écrans televisivos), eis que num momento de sorte e acaso que não parecia ir acontecer em face da resignação portista, um pontapé que surpreendeu até o seu próprio autor acabou por transformar um sonho que os adeptos encarnados já viviam num pesadelo de dimensões inimagináveis como se iria posteriormente confirmar.

4. Na final que se seguiu (a Liga Europa) perante o campeão europeu em título, o Benfica soube reagir ao golpe de infortúnio do Dragão e protagonizar uma exibição que vulgarizou o seu adversário. No entanto, tal como no Dragão e quando já se aguardava o prolongamento, a equipa encarnada seria traída outra vez no último momento por um golo que acabou por determinar o vencedor. Falou-se então em coincidências funestas e até de maldição. Todos tinham reconhecido o enorme mérito da exibição mas, a história, fria e objectiva, tinha-se limitado a registar o nome do Chelsea como vencedor.

5. Foi pois já sob o signo do desencanto que o Jamor viu um Benfica falhar a sua derradeira hipótese de um troféu, e aí sim, os encarnados justificaram o que lhes aconteceu. Estava consumada uma época de tanta expectativa que se diluiu até atingir uma expressão de desalento de todos, desde jogadores, equipa técnica, estrutura envolvente, Direcção e obviamente os adeptos. Como as imagens finais são as mais facilmente retidas pela mente, as incidências registadas que envolveram Cardozo, a falta de fair play da equipa e os insultos com que Jorge Jesus e Luís Filipe Vieira foram mimoseados no final faziam prever um período subsequente agitado.

6. Todos os sonhos se esfumaram no escasso período de 12 dias e num repente, o entusiasmante futebol apresentado ao longo de toda a época e o capital de confiança que a equipa tinha amealhado foram mandados às malvas por golos fortuitos dos adversários obtidos no fatídico minuto 90 + 2. Instalou-se então um novo síndroma, a juntar à celebre a arrastada maldição de Gutmann. Todos os factores positivos (e foram muitos) foram subitamente esquecidos e, como é da praxe, passou-de de imediato à caça às bruxas com o presidente e o treinador como bodes expiatórios de uma época terminada em estado depressivo.

7. Ultrapassada a fase reflexiva e recuperado o élan da pretérita temporada ainda que com contornos algo diferentes no futebol apresentado, o Benfica, tal como um ano antes, está novamente na fase de todas as decisões com uma importante e decisiva diferença: já atingiu o seu principal objectivo da época e está presente em mais uma final com possibilidades de atingir o pleno. Mas, tal como então, ainda não venceu qualquer final. De novo apenas 11 dias voltarão a ser cruciais na definição global da época, sendo que os culpados de há um ano são agora os grandes responsáveis pela onda de euforia que grassa no universo benfiquista.

8. De facto, apesar da percentagem de teóricos estar a aumentar, o futebol e todas as suas envolventes não se conseguem explicar; nos momentos decisivos que marcam nos dois sentidos uma época e na reacção imponderada e até mesmo irracional dos adeptos, afinal, aparte os acasos infelizes e inesperados do passado e exceptuando a questão fulcral do título, até a este preciso momento o que mudou verdadeiramente nos outros aspectos para que hajam sentimentos e opiniões tão antagónicas?




Bookmark and Share