Ponto Vermelho
Confusões e expectativas no reino azul e branco
7 de Maio de 2014
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1. Não se poderá dizer em absoluto que a época de descalabro do FC Porto tenha sido uma surpresa completa. Os sinais que vinham emergindo e os sintomas de que dava mostras o Dragão fazia prever que, mais tarde ou mais cedo, isso poderia acontecer. E não colhe a crítica de que é fácil constatar a realidade depois de ela ter acontecido, porquanto diversos observadores e mesmo vários adeptos portistas bem conhecidos já tinham deixado antever a possibilidade desse desenlace. A questão que sempre se colocou em cima da mesa é se seria uma questão meramente passageira ou se tinha raízes mais profundas. Aí as opiniões divergiram.

2. É inquestionável que a tão elogiada estrutura do FC Porto foi construída e sempre assentou numa forte componente de influência e de controle de todos os meandros relacionados com o futebol directa ou indirectamente, onde uma boa parte das vezes acabam por se decidir os jogos e os campeonatos. Emergindo na década de 80 para o que contou, numa primeira fase, com a neutralidade benfiquista e a oposição leonina através de um dos seus mais emblemáticos presidentes – João Rocha –, Pinto da Costa teve a arte e o engenho de estabelecer uma estrutura sólida, eficaz e de perfeito domínio de todos tabuleiros que de alguma forma pudessem contribuir para a causa perseguida. Até porque acabou por conseguir quase sempre colocar em rota de colisão os dois presidentes dos clubes lisboetas.

3. Sem companhia no mercado para o que muito contribuiu a arte de dividir para reinar, foi relativamente acessível iniciar um ciclo prolongado de vitórias através da formação de equipas competitivas e com isso alcançar êxitos sucessivos enquanto os seus adversários entravam cada vez mais no caminho do insucesso e do descalabro. Assentando o equilíbrio financeiro e emocional dos grandes clubes de futebol numa lógica ganhadora, perdendo mais do que ganhando acabaram por criar problemas insolúveis que culminaram em crises profundas.

4. Pode-se imaginar como é difícil um clube de enorme historial reerguer-se depois de anos e anos de insucessos. É um trabalho árduo que requer grande competência, disponibilidade e dedicação pois as dificuldades surgem a cada passo e a cada esquina, sendo que nessas circunstâncias existe tendência para que sejam cometidos mais deslizes devido à constante pressão que se faz sentir. Para além de que há que lidar com alguma falta de compreensão dos adeptos e simpatizantes que nem sempre conseguem perceber o que está em jogo pois funcionam sempre através de uma lógica ganhadora. É isso que sucede em qualquer clube e o Benfica não constituiu excepção.

5. Encetada a recuperação e terminado o período sabático muito para além do que seria comum desejo da estrutura e dos adeptos, foi possível constatar com tendência crescente que as assimetrias, ainda que de forma pouco nítida, estavam a ser reduzidas. Esse factor sofreu um forte impulso com o Apito Dourado em que pela primeira vez todos os adeptos do futebol e opinião pública em geral tiveram oportunidade de perceber em toda a sua extensão que o domínio acentuado e prolongado do FC Porto não acontecia apenas e só porque alegadamente tinha melhores equipas e melhores jogadores…

6. De há uma mão cheia de anos a esta parte que se tem observado que as diferenças têm-se reduzido e nas últimas três temporadas só não aconteceu um êxito total do Benfica no campeonato devido a alguns resquícios do passado dos campos inclinados e com erros próprios à mistura – 1.ª época –, e alguma falta de sorte associada a novos erros na 2.ª, sendo que na 3.ª que ainda não terminou está a ser o que se constata. Na realidade, em qualquer delas foi demasiado evidente que o FC Porto se encontrava em declínio e só o facto de ter conseguido vencer pelas razões apontadas, evitou a precipitação dos acontecimentos.

7. Embora todas as coordenadas indiciem a forte possibilidade de podermos viver uma nova era no futebol em Portugal, é ainda muito cedo para extrair conclusões que em futebol tendem a nunca ser definitivas. Para já é inegável que o reino do Dragão está agitado e ameaça transformar-se num barril de pólvora. A apresentação de um novo treinador com o campeonato ainda a decorrer, constitui uma falha de ética (??!!!) para com Luís de Castro (um treinador que sempre tem sabido estar), revela alguma desorientação e está a causar incompreensão e apreensão por parte da intelligentsia portista que já percebeu que as coisas não serão mais como dantes. Se será definitivo ou não o tempo o dirá. Por ora ficam as apreensões e as expectativas do mundo portista.






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