Ponto Vermelho
Gestão no futebol… ou falta dela! - Parte II
21 de Maio de 2014
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Por EagleView

Ainda que não tenha escolhido o caminho (pelo menos para já) de escrever o tal livro apesar da abundante matéria existente, não gostaria, contudo, de deixar mais alguns apontamentos. Que reflectem a minha opinião enquanto observador atento do fenómeno futebolístico e que têm o intuito de combater algum imobilismo e, sobretudo, dismistificar certas lendas que têm embevecido a populaça e entretido alguns observadores encartados que têm alimentado até à exaustão um fenómeno que já dura há três décadas mas que não passa de pura mistificação ainda que, convenhamos, com alguma imaginação. Mas qualquer pessoa acredita naquilo que quer e por essa via tende a comprar gato plenamente convencida de que se trata de um enorme lebrão.

Aqui ficam portanto mais algumas notas para reflexão:

1) O futebol não é um negócio sazonal, pois dura quase todo o ano apenas com um pequeno hiato no verão. Face a esse gap, há que descobrir maneiras de suprir a falta de receitas nos 2 meses em que o Futebol-jogado está de férias como agora. Elas existem e é para isso que existem gestores competentes na verdadeira aceção da palavra. É uma questão de os descobrir e de os conseguir contratar. É aí na maior parte das vezes, que reside o verdadeiro busílis da questão.
Os negócios sazonais são aqueles que têm proveitos, por exemplo, durante 6 meses, mas os custos também desaparecem, ou devem desaparecer em grande parte, durante a época em que não há receitas.
O que não é de forma clara o caso do futebol.

2) Gerir apenas pelas margens operacionais não faz qualquer sentido neste negócio, uma vez que é diferente e muito específico.

3) O passivo (remunerado e apenas este) e os juros que origina, só tem importância quando o negócio não gere dinheiro suficiente para os pagar, como foi, por exemplo, claramente o caso do Sporting.

4) O historial dos clubes, nesse capítulo específico, não tem qualquer valor para os dias de hoje. Ninguém gere pelo historial da empresa como ninguém conduz um carro a olhar pelo retrovisor ou pelo vidro traseiro.

5) É verdade que o FC Porto e Benfica têm sobrevivido à custa de mais valias das vendas de jogadores. Mas enquanto no Benfica isso tem feito parte de um projecto sustentado de crescimento do clube por ter sido um MEIO para permitir a concretização desse projecto a longo prazo, no FC Porto tem sido uma maneira de ir cobrindo necessidades anuais de tesouraria em projectos sucessivos de curto prazo, i.e. pura navegação à vista. É exatamente para sobreviver sem estar dependente dessas vendas aleatórias e extraordinárias que o Benfica tem vindo a desenvolver um projeto a longo prazo no qual estão depositadas as maiores esperanças.

6) O historial de vendas do FC Porto de nada lhe serve actualmente, pois não é esse dinheiro que lhes vai pagar as dívidas nem libertar verbas para investimentos. O passado não influi em nada se não aprendermos com ele e se não servir para preparar os tempos de vacas magras que inevitavelmente acabam por surgir. Daí a importância da visão e do tal projecto a longo prazo.

7) Enquanto os investidores estiverem dispostos a fazer o roulement obrigacionista da dívida do Benfica este não tem nada a temer, pois são eles e não os bancos que investem. Assim como enquanto o Benfica tiver activos (jogadores) com valor reconhecido no mercado e relativamente líquidos que permitam cobrir o passivo. Já no Sporting isso não tem acontecido. Sabe-se bem porquê.

8) Ao contrário dos seus adversários directos, o Benfica por força da poderosa marca que detém no mercado global e da imaginação, competência e capacidade dos seus gestores, tem vindo a diversificar e encontrar novas fontes de receitas que ainda estão muito longe de estar esgotadas. O último grande tiro é a Benfica TV como projecto de grande envergadura e que já permite ter uma visão futurista de quanto o Benfica irá poder ganhar quando esse projecto entrar em velocidade de cruzeiro. Mas parecem já não restar dúvidas que tendo sido uma aposta arriscada, a mesma já permite definir potencialidades e avaliar o retorno presente e sobretudo futuro. Apesar do mercado do audiovisual poder vir a sofrer transformações profundas a qualquer momento.
















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