Ponto Vermelho
Relembrando Preud´homme
27 de Maio de 2014
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Por EagleView

Enquanto uma percentagem elevadíssima de jogadores passam sem praticamente deixar rasto, outros há (uma muito escassa minoria) que deixam para sempre gravada nos clubes e no coração dos adeptos a sua passagem. Pela sua categoria como jogadores, pela sua postura e atitudes irrepreensíveis como seres humanos, pela simpatia que irradiam. Felizmente que pelo Benfica têm desfilado vários desses profissionais que escreveram páginas de sucesso continuadas o que muito orgulha os benfiquistas que jamais os esquecerão. Mesmo que a inevitável erosão do tempo vá esbatendo as imagens gravadas dos seus golos, das suas defesas, das suas jogadas, das suas alegrias e tristezas ou do seu sorriso único e contagiante.

Um desses jogadores foi o guarda-redes belga Michel Preud’homme que defendeu com enorme categoria e classe as redes encarnadas na década de noventa ao longo de 5 épocas. Pena foi que, por essa altura, o Benfica se encontrasse já na curva descendente que o haveria, escassos anos depois, de conduzir até praticamente ao buraco negro do abismo. Mau grado isso, em todas as suas declarações sempre demonstrou gratidão e recordou com carinho a sua passagem pelo emblema encarnado. Um guarda-redes histórico, um desportista exemplar e um homem com H grande. Em mais um tributo e reconhecimento, Preud’homme será homenageado na 1ª edição do Congresso Internacional de Guarda-Redes a realizar na cidade do Porto nos próximos dias 6, 7 e 8 de Junho.

Aproveitando a oportunidade, o MaisFutebol teve ocasião de lhe efectuar uma entrevista no passado dia 7, no próprio dia da final da Taça da Liga e antes das finais da Liga Europa e Taça de Portugal. Teve naturalmente ensejo de abordar vários aspectos ao longo da entrevista e inclusivamente falar sobre o FC Porto que na altura já dava passos largos na fase ascensional que o haveria de conduzir ao pódio do futebol português. Eis uma passagem sobre o então clube das Antas expressa na sua linguagem escorreita, independente e muito peculiar:
«Tinham uma espécie de superioridade moral nos jogos contra nós, eram arrogantes no bom sentido. No futebol isso é um bom começo de conversa».
Michel Preud’homme, uma pessoa boa e simpática que tive o previlégio de conhecer pois esteve em minha casa algumas vezes, juntamente com a mulher e o filho, nunca soube nada da sujidade que existia no futebol português, nem eu sequer lhe expliquei porque, valha a verdade, também não estava tão bem informado como estou hoje.

De facto, ler nas entrelinhas só algumas pessoas o conseguem. Tendo o futebol português a forma de um sistema de vasos comunicantes, a «superioridade moral dos jogos contra nós» vinha da confiança que o Sistema incutia não só nos jogadores e à demais estrutura do FC Porto, dando-lhes proveitos em termos de vitórias, com a consequente desmoralização que causava nos adversários especialmente no Benfica, o principal inimigo onde se concentrava todo o ódio que expeliam e ainda expelem, que estava na altura (des)governado por um presidente corrupto e incompetente. Eu sei bem do que falo pois acompanhei tudo de muito perto.

Comparem com esta época em que aconteceu precisamente o contrário - arauto dos novos tempos que virão - porque o Sistema além de estar mais fraco e diluído, as pessoas e as conjunturas também já não são as mesmas. As ditaduras têm um certo limite de tempo, um prazo de validade, e esta está a chegar ao fim. São assim os ciclos da vida. Também as redes sociais vieram mudar em muito a lógica da coisa e agora até os próprios jogadores portistas sabem o que se passa pois estão já mais bem informados. A verdade pode ser chutada para debaixo do tapete mas mais tarde ou mais cedo volta à atmosfera.

A ómertá, um dos meios que permitiu a perpetuação do Sistema durante tanto tempo, sofreu um rude golpe e o futuro nunca mais será como o passado. Está cada vez mais difícil de esconder a realidade. Mas há gente que, por falta de imaginação e competência, continua a tentar arranjar as soluções do passado para os problemas do futuro. It bodes well for the future. Por mais que procurem encontrar razões para tentar branquear tudo o que aconteceu nos últimos 30 anos no futebol português, nunca irão conseguir. Jamais conseguirão apagar os 30 anos de podridão que minou e emporcalhou o futebol português e que é inédito a nível do futebol mundial.
“30 years of Rot” ainda não está perpetuado em livro, mas sê-lo-á. É tudo uma questão de tempo…








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